Thursday, September 30, 2004

Fragmentos de um projeto sobre a Conquista

A primeira nau da frota encalhou quando ainda pensávamos estar em águas profundas. O capitão e toda tripulação ficaram atordoados. Nenhum sinal de terra aparecera até então. Nem aves, nem algas, nem nada no horizonte. As outras naus que passaram encalharam mais a frente. Foi um brusco encontro com Deus. E com a graça Dele, não houve nenhum naufrágio(...)

Dos batéis avistamos a praia que se estendia como outro mar. Um deserto (...)

-Olha! Um unicórnio!
-Onde?
-Bem aqui na nossa frente!
-É um lagarto. Vou matá-lo e comê-lo.
-Matar o unicórnio, tolo?! Comê-lo? Um unicórnio bem diante dos teus olhos e queres matá-lo!
-Sim! Agora vejo! Um unicórnio! Escarlate como o sol se pondo!
-Escarlate, não! Branco! Branco como as nuvens, teu ignorante!
-É verdade! Alvíssimo!
E corremos ao acampamento pregonando a notícia do animal fabuloso e todos se maravilharam, até Elias, o incrédulo, o cético, o ranzinza. E muitos acontecimentos e animais fabulosos começaram a aparecer naquelas benditas terras desde aquele dia (...)

Não havia nada a ser invadido, tomado, conquistado, explorado... Uma dúzia de naus, centenas e centenas de guerreiros encouraçados em nome de Deus usando suas espadas sagradas para matar e comer cobras e lagartos. Nada a ser pilhado, ninguém a ser catequizado. O deserto era a nossa mais dura irrealidade (...)

"Um lugar divino! Uma terra resplandecente como ouro! Aqui a presença de Deus é imperiosa. Caminhar por estas terras é como caminhar sobre a mão de Deus, diante de sua face, diante do seu olho solar que nos cega... Não há solidão mais companheira, não há vazio mais pleno. É uma terra para se soerguer Conventos e Monastérios. É uma terra para os santos, para o jejum sagrado, para a castidade, para a humildade. Ah, vaidade! Ah, soberbia! Aqui nesta terra benta não tendes vez!" (...)

"E se é terra para os santos, se aqui é o solo perfeito para construir o mais sacrossanto dos Monastérios, é aqui também o lugar ideal para toda a gente perdida... É terra para bandidos e pecadores, é o terreno perfeito para construir a mais grandiosa das prisões. Aqui, pecar é impossível. A alma que não se salva nesta terra, não se salva nem diante das portas do Céu ou do Inferno, pois aqui se está diante da face de Deus. Não há pecado abaixo da linha do Equador, pois aqui é impossível pecar! Portanto, que venham os homens santos, mas que venham também as mais vis e perdidas criaturas desta terra. Aqui, o fugitivo de Deus, quanto mais longe pensa poder ir, mais entregue a Deus estará e quanto mais insistir na fuga, mais próximo de morrer sobre a divina mão estará." (...)

"Deus é misterioso e escreve certo por linhas tortas... Buscávamos a perdição e encontramos a salvação e a divina redenção nestas terras abençoadas. Procurando ouro encontramos a fé e pela ganância, chegamos ao desprendimento absoluto. Abençoado Nada! Eis aqui o verdadeiro Paraíso Terrestre!" (...)

O capitão se negava a alçar âncora, astiar velas e partir. Queria explorar aquelas terras e quando seu desespero levou de vez a sua alma, não lhe bastou mais explorar aquele imenso deserto onde a léguas de distância já se previa que nada se veria: quis guerrear. Voltou a galope e anunciou que o exército inimigo marchava em nossa direção. Chamou todos os seus homens às armas (...)

Lá estavam todos enfileirados, em posição de combate, esperando a aparição do exército inimigo e o sinal do capitão. A espera sob o sol e o silêncio durou algumas horas e os homens estavam tensos. O capitão não queria marchar. Quando o sol atingiu seu ápice e não restava nem mais uma mínima sombra o capitão sobre seu cavalo ergueu o sabre, lançou sua ponta para frente e gritou "Atacar!". Com enorme coragem e deprendimento da propria vida partiu em carga contra o inimigo. Seu exército, não sei se por espanto ou covardia, apenas admirou a sua primeira investida contra o inimigo que o derrubou do cavalo. Mas o capitão recuperou o seu sabre e reiniciou o combate. E pelo que se podia perceber a partir do capitão, havia inimigos por todos os lados.

Começaram murmúrios sobre bruxaria. O capitão estaria enfeitiçado. Mas este rumor cedeu a outro mais forte. O demônio tornou invisível o exército inimigo, mas Deus dera forças de mil homens ao capitão. E assim, todos se lançaram aquela lida que só terminou quando o sol ia se pondo, quando o cansaço derrubou vários soldados.

Alejandro Etc.

Wednesday, September 29, 2004

Casa de Família

"Dliiim-dloooum" tocou a campainha melifluamente. Iguana não via os primos e os tios há pelo menos uns sete anos. Sumiu mais ou menos na época que se tornou straight edge, vegan, e quando começou a se tatuar. Da última vez que viu os primos, sua pele ainda era virgem e imaculada. Antes desse sumiço, passava todas as férias nessa casa na qual estava prestes a entrar. Longas férias. Chegava a pensar que morava ali. Foram bons momentos. Lembra-se bem do seu tio Carlos levando ele e os primos pra passear de carro, ir ao Parque Municipal, andar a cavalo, ir nos brinquedos, tomar sorvete ou comer melancia... Mas as coisas mudaram bastante. Agora, lá estava ele e a mãe. Seu coração batia tão forte que a asa direita da águia do Path of Resistance, sua terceira tatuagem em ordem cronológica, parecia bater também. Realmente não queria estar ali. E a porta se abre:
-PUTA QUE ME PARIU!
-Oooi, Carlos! - disse a mãe de Iguana. - Quanto tempo, hem?
-Regina, quem é esse? Seu amante?!
-É o Leozinho, Carlos! - disse ela rindo bobamente, ainda do lado de fora. Carlos era um cara enorme para todos os lados. Alto e gordo, calvo, um bigode exagerado, respiração sempre arfante e uma cara sempre séria e mal-humorada, apesar do seu constante senso de humor e piadas doentias. A última coisa que Carlos seria na vida é uma pessoa séria.
-Vai nos deixar aqui do lado de fora? - disse Regina.
-Você não, que é um doce. Pena que na época eu não percebi que você dava mole pra mim e me casei com a tarada da sua irmã. Agora, esse cara aí, eu não sei. Mó pinta de vagabundo...
Regina riu e foi entrando, cumprimentando, abraçando, beijando, elogiando, se admirando com as crianças, etc...
Iguana, ou melhor, Leozinho (pois Iguana era só na cena), foi entrando logo depois da mãe, mas o tio Carlos colocou a sua enorme barriga na frente e o bloqueou:

-Onde pensa que vai, cara? Isso aqui é casa de família.
-Não enche, tio. Me deixa entrar.
O tio Carlos encarou Leozinho com seu olhar de peixe morto.
-Agora é só eu e você!
"It's me or you and something is gotta give!", pensou Iguana. E ainda: "...No time for simpathy, moment of truth is here. I don't care what you think of me, it's not revenge I seek, it's you and me. Right now! You and Me! Right Now! Just you and me!"
-E essas suíças de viado? Regina! - gritou Carlos pra dentro da casa, ainda bloqueando Leozinho no corredor, que morria de vergonha de um vizinho que escutava tudo esperando o elevador. - Como você namora um cara com essas suíças de homossexual?
-Pára de encher ele, Carlos. - disse Regina já sentada no sofá da sala.
-Fecha a porta, Carlos. Tá entrando a maior corrente de ar. Pára de palhaçada. Quero ver o Leozinho. - disse Ângela, a esposa de Carlos.
-Mesmo com essas suíças de viado?!
-Suíças? - perguntou Iguana.
-Suíças, costeletas, viadagem... Vai entrando, ô cara. Mas tô de olho em você!
Carlos pegou Iguana pela cabeça e o atirou para o meio da sala, onde ele tropeçou em um bebê e caiu. Levantou-se rapidamente. A criança chorou. Carlos fechou a porta lentamente, como tudo que faz, e, foi arrastando os chinelos pro meio do povaréu.
-Leoooziiinhooo!!! - disse a tia Ângela após alguns segundos de estupefação muda.
Não havia mais lugar pra se sentar na sala. Todas as suas tias, avós, tias-avós e tios-avôs, primos, sobrinhos desconhecidos, etc dominavam o lugar. E havia um trânsito congestionado de bebês e crianças pelo tapete. O clima era tenso e cheirava a coxinha de galinha, pão de queijo e guaraná.
Iguana sentiu um calor na retaguarda. Era o tio Carlos, parado logo atrás dele, comendo coxinha, arfando e lendo as suas tatuagens.
-Que porra é "bortuluse, live tuím"?
-Me deixa, gordo!
-Regina! Esse cara tem uma mulher pelada no braço! Até vejo os mamilos dela! - disse Carlos.
-É uma pin up - disse Regina. Não lembra? Isso é do seu tempo! - e riu em seguida.
-Pois é. Mas só em poster e calendários. Eu tocava punheta pra elas. Muita punheta, é bom dizer!
-Aiii, Carlos. Que horror. - disse Ângela. - Olha a tia Oswaldina aqui! Sabe que ela não gosta disso.
-Velho maluco! - disse uma das tias-avós. Tia Oswaldina, felizmente, era quase surda.
-Puta merda! - disse Carlos rindo e cuspindo fiapos de galinha. - Tooodo rabiscado! Por que você tatuou uma mulher pelada no seu braço, cara? Quer que homens se excitem ao olhar pra você? Tem mais mulher pelada por aí? Quero ver! Me deixa ver!
-Só tem essa, graças a Deus. - disse Regina, simpática como sempre.
-Uma mulher pelada, um peixe, uma bola de sinuca, incêndios, um cadillac, uma caveira com um parafuso na cabeça... Tira a camisa, tira a roupa, cara, deixa eu ver o que tem mais aí...
-Tira a mão, gordo! Me solta, me deixa! Sai! Chispa!
-Deixa o menino, Carlos! - disse uma tia bonachona chamada Antônia. - É coisa da adolescência!
-É, Tonhona? - Carlos sempre tinha um apelido especial e desagradável para cada parente, que ele nunca esquecia e que só ele usava. - Por isso esse mundo é um manicômio. Adolescentes demais. Crianças adolescentes, bebês adolescentes, velhos tarados adolescentes, todo mundo é adolescente nessa porra! Mate um adolescente e faça o meu dia feliz!
-Seus filhos são adolescentes! - disse Tonhona.
-Mas eu ponho eles na linha! Eles são adolescentes adultos.
A esposa gargalhou e ironizou:
-Põe sim, Carlos! Eu sei que põe.
-Pelo menos eles não estão rabiscados. E olha! Rabiscado e tooodo furado. Olha isso, que indignidade! Dois rombos na orelha! É um degenerado!
-São plugs, Carlos. - disse Regina, querendo se mostrar uma mãe interada e moderna.
-Plugs?! Deixa eu ligar o microfone do videokê na sua orelha então, cara! Vamos cantar!

A anfitriã, tia Ângela, chamou todos pra mesa:
-Venham, antes que o Carlos coma tudo.
-Nada mais justo! Afinal, eu paguei por tudo isso.
A multidão se desloca. Iguana fica parado no mesmo lugar. Começa a se sentir enjoado.
-Aaah, gente! - disse Regina, mãe de Iguana - Vocês não sabem da maior. Leozinho é vegan.
-Vi o quê? - perguntou Carlos.
-É vegetariano. Mas é mais complicado.
-Ah é?! Complicado? Eu descomplico... - disse tio Carlos. E dando tapinhas na cadeira, a única restante, ao seu lado, chamou por Leozinho: - Vem cá, vem! Vem comer um peixinho frito com o titio.
Iguana, rápido como um réptil, correu para a porta. Tentou abri-la e escutou o tio Carlos dizer:
-Eu pego ele...
Iguana ia testando chave por chave e o barulho arrastado do chinelo do tio Carlos ia se aproximando. Uma, duas, três, quatro chaves, o desespero aumentava, o suor escorria e nada... Iguana, ateu convicto, murmurava tenso para si: "Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!..."
Tio Carlos apareceu do outro lado da sala. Caminhava de forma pesada e tranqüila. Era uma tortura mental. Cinco, seis, sete chaves, e Carlos chegou no corredor de entrada e parou. Três passos de distância. Oito, nove, décima chave e serviu! Serviu, porra! Iguana girou a maçaneta e... não abriu.
-Falta essa papaiz do trinco aqui. - disse Tio Carlos, balançando vitoriosamente a chave no ar diante dos olhos apavorados de Iguana. Em seguida, sua mãozorra foi pegar o prêmio.
-AAAAAAAAAAAAAAh!!! AAAAAAAAAAAAAAAh!!! NÃÃAAAAAAAAAAAooo!!! AAAAAh!!! - gritou Iguana.
-Meu Deus! O que é isso?!
-Meu filho!
-Carlos esfolou o menino!
-É um estupro!
-Eu te avisei, Ângela! Sempre te avisei! - disse tia Oswaldina que ouviu claramente os gritos.
Os familiares correram para acudir Leozinho. Se amontoaram no vão da porta, mas Regina foi a única que conseguiu se aproximar do filho histérico.
-Quero sair! Me deixa sair! - gritava Iguana.
-O que você fez com ele, Carlos? - perguntou a sogra. E Carlos, sem graça e assustado, respondeu:
-Nada! Só vim buscá-lo para almoçar, caralho.
Iguana mostrava-se inconsolável e irredutível. Carlos entregou a papaiz à Regina, que abriu a porta para o filho. Iguana nem esperou o elevador, desceu as escadas correndo.
-Gente!... - disse Regina admirada. - Eu vou atrás, né? Me dá minha bolsa aí, Ângela. Desculpa, né gente? Se der eu volto.
Regina saiu, diante do espanto familiar.
-Viciado! - esbravejou Carlos, com o consentimento silencioso de todos. - É coisa de adolescente! - disse remendando ridiculamente a voz de Tonhona. - Eu vou te mostrar o que é coisa de adolescente!

Alejandro Sainz de Vicuña Etc.

Los cronopios vs el sistema

Esse é o nome do evento em homenagem a Julio Cortázar no consulado argentino. Foi muito bom encontrar vários cronópios. Se tinha algum fama lá, estava disfarçado de cronópio. Sim, os famas sabem parecer outros, mas não por diversão, e sim por motivos importantíssimos e com um profissionalismo impecável; com fins práticos e necessários justificando os meios eficientes e eficazes. Ah, não! Tinha um fama sim... Mas coitado, era nitidamente um fama, parecia entediado, mas soube manter-se solene e seguir o seu protocolo.

Os debates e as palestras foram legais, as charlas também, o Axolotl foi engraçado (não imaginava assim), a violinista envergonhada e solitária, ou com Bach, foi legal, o duo, ela e outro violinista, a dois, ou a trois com Bartok, isso sim foi fantástico. E as milongas de Gardel, Cortázar e Piazzola.

Ah! Esquici do filme... La intimidad de los parques de Antín, baseado nos contos El ídolo de las cícladas e La continuidad de los parques, ambos do Cortázar. Foi outra coisa. Sem fidelidade. Trocar o Egeo, Grécia, Creta por Machu Pichu, a Grécia latino-americana, foi bem sacado; o minotauro pelo ¡venga toro!, também. Mas o filme não nocauteia como um conto. É lento, lânguido, e alterou coisas fundamentais como as tetas de Therèse (Teresa segundo o filme). As tetas de Teresa (eu prefiro seios, mas tetas de Teresa soa melhor do que seios de Teresa) estavam perfeitamente colocadas no conto. Apareciam descobertas na hora certa e se cobriam na hora certa e da forma certa e com a analogia certa: compare Therèse cobrindo os seios com a estátua em questão. Quase o mesmo gesto. Sem falar que no conto, Therèse aparece tanto quando a estátua. No filme, Teresa é uma Capitu devassa, devassada, que todo mundo sabe que traiu Bentinho (ou Hector, no filme, ou Morand no conto).


Viaje (cronopios y famas)

Cuando los famas salen de viaje, sus costumbres al pernoctar en una ciudad son las siguientes: Un fama va al hotel y averigua cautelosamente los precios, la calidad de las sábanas y el color de las alfombras. El segundo se traslada a la comisaría y labra un acta declarando los muebles e inmuebles de los tres, así como el inventario del contenido de sus valijas. El tercer fama va al hospital y copia las listas de los médicos de guardia y sus especialidades.

Terminadas estas diligencias, los viajeros se reunen en la plaza mayor de la ciudad, se comunican sus observaciones, y entran en el café a beber un aperitivo. Pero antes se toman de las manos y danzan en ronda. Esta danza recibe el nombre de "Alegría de los famas".

Cuando los cronopios van de viaje, encuentran los hoteles llenos, los trenes ya se han marchado, llueve a gritos, y los taxis no quieren llevarlos o les cobran precios altísimos. Los cronopios no se desaniman porque creen firmemente que estas cosas les ocurren a todos, y a la hora de dormir se dicen unos a otros: "La hermosa ciudad, la hermosísima ciudad". Y sueñan toda la noche que en la ciudad hay grandes fiestas y que ellos están invitados. Al otro día se levantan contentísimos, y así es como viajan los cronopios.

Las esperanzas, sedentarias, se dejan viajar por las cosas y los hombres, y son como las estatuas que hay que ir a verlas porque ellas ni se molestan.

Julio Cortázar



Tuesday, September 28, 2004


Julio "Lemmy" Cortázar e seu gato. Posted by Hello

El sueño de la razón produce monstruos...




Y la razón de lá sin razón de los sueños produce qué?


DIÁLOGOS A DOIS pt. II - O Anarco-punk e o Nihilista


NIHILISTA-Por que matou o grilo?
ANARCO-Sei lá. Acho que só pra ver ele morrer mesmo, assim, do nada, sem motivo, gratuitamente. E eu ainda saio impune.
NIHILISTA-Parabéns. Um filhote de desembargador não teria feito melhor.
ANARCO-Uma existência interrompida brutalmente... Você acha que existe ato mais hediondo do que tirar uma vida sem motivo?
NIHILISTA-Sim, tirar muitas vidas sem motivo.
ANARCO-Claro. Mas existe ato mais hediondo do que um holocausto onde o genocida não se dá nem ao trabalho de justificar a matança?
NIHILISTA-E justificar faz alguma diferença?
ANARCO-Faz. Desde que se acredite na justificativa. Eu falo em cometer um genocídio como quem chuta uma lata na rua. Existe algo mais hediondo do que isso?
NIHILISTA-Você completamente nu.
ANARCO-Porra!
NIHILISTA-Certo... Tem sim. Tem coisa pior.
ANARCO-Pior?! Como assim?!
NIHILISTA-Pior do que tirar vidas sem motivo é criar uma vida sem motivo. Qual filho já não disse aos pais que não pediu pra nascer? É como dizer: Eu preferiria nunca ter existido, eu preferiria nunca ter que preferir. Eu não pedi prazer nem dor, não pedi amor nem ódio, não pedi verdade nem mentira, não pedi diversão nem tédio, não pedi certeza nem dúvida. Por que não deixam o Nada quieto na dele? Por que não o deixam seguir sendo o que sempre foi?
ANARCO-Você só quer arranjar um motivo filosófico pra gostar ainda menos dos seus pais.
NIHILISTA-E Deus é ainda pior do que os meus pais e do que todos aqueles que se reproduzem! Quantas vidas ele não criou sem motivo? Um universo inteiro sem motivo algum! Por que incomodar o Nada que desdenha do Absoluto, do transcendente, das utopias e até dos bons e fúteis momentos de uma vida qualquer? Não existe motivação para criar o que quer que seja. E criar é como um vírus, uma peste, empesteia o Nada, destrói ele. Uma criação leva a outras e a outras e a mais outras. Criar é a maior de todas as contradições, ou a única contradição relevante: criar é perturbar a única coisa plena e absoluta, o Nada, para depois tentar, em vão, criando e criando, alcançar o absoluto, que digo, com segurança, é o Nada.
ANARCO-Mas toda criatura pode escolher entre viver e o nada. Toda criatura pode decidir se acredita que veio do nada e terminará em nada; se acredita em um Criador ou no acaso ou se não acredita em nada, se ignora, se duvida... Eu, enquanto criatura, posso, se assim creio, voltar a ser nada. Mas e se o Nada não existir como aquilo que inexiste? Se o Nada for apenas uma espera? Ou uma terceira coisa?
NIHILISTA-Ok. Eu sou uma criatura e acho que viver não vale a pena. Eu acredito no nada e quero me matar. Por que não consigo? Porque me foi dado o maldito instinto de auto-preservação, de sobrevivência! Eu pedi esta merda a alguém?
ANARCO-Não. Mas se matar pode ser tão simples e rápido que instinto algum seria problema. O problema é que você não tem convicção no Nada. E essa dúvida te come por dentro porque te impede de ser um nihilista convicto. Você sente raiva por não poder ser plenamente e tranqüilamente o que se propõe a ser. Você pode se dar um tiro na cabeça e em seguida ver que a escuridão definitiva não veio. Vai ser patético. "Ih, que merda! Eu ainda penso, logo existo!" E o injusto é que se você triunfar, não vai ter nem tempo de sorrir.
NIHILISTA-Não faria nem questão de sorrir, muito menos de triunfar. Triunfar sobre o quê? Se eu quero mais é que tudo se foda. E você? Não se sente angustiado por viver sem ter o conforto e a certeza de uma finalidade para a sua vida? Se você luta por alguma coisa, por justiça, se essa é a sua escolha, você está correndo o mesmo risco de ser patético como eu serei ao me dar um tiro na cabeça.
ANARCO-Sim, mas é melhor que assim seja.
NIHILISTA-Como? Não sente raiva por viver sem ter pedido para existir? Sem ter coragem ou certeza para se matar e acabar com esse absurdo? Ou para lutar por justiça sem ser em vão? Se Deus existe, eu sinto raiva dele por me criar e não explicar as regras do jogo.
ANARCO-Tudo bem, mas se Deus te criasse e desse uma finalidade à sua existência e à existência dos outros, você chamaria ele de Fascista.
NIHILISTA-E eu estaria coberto de razão!
ANARCO-Ou seja, a única forma de você não se ressentir com a vida é inexistindo.
NIHILISTA-Ou quando eu estou curtindo ela adoidado.
ANARCO-E esses momentos não fazem valer a pena estar vivo?
NIHILISTA-Acho que não. Você comeria um sorvete sabor merda com saborosíssimos pedacinhos de chocolate?
ANARCO-Valendo cinqüentinha?
NIHILISTA-Valendo a sua alma.
ANARCO-Pfff...
NIHILISTA-Então tá, eu vou destruir esse assunto te contando uma pequena história.
ANARCO-Pequena mesmo?
NIHILISTA-Sim. Apesar de ser História com "H" maiúsculo.
ANARCO-História do Brasil ou Geral?
NIHILISTA-Digamos que seja História Geral. Vamos chamar essa breve exposição de:

"HISTÓRIA BRUTALMENTE PRECISA E CONCISA DA HUMANIDADE SOB UMA PERSPECTIVA MAGNÂNIMA"

ANARCO-Gostei do nome. Diga lá...
NIHILISTA-Lá vai... De um minúsculo ponto irrompeu-se uma explosão. Dessa explosão se formaram estrelas. Ao redor de uma delas formou-se um planeta onde surgiu um ser pretensioso que inventou o conhecimento. Algum tempo depois a estrela esfriou e a vida no planeta acabou junto com o ser pretensioso que inventou o conhecimento.
ANARCO-E?...
NIHILISTA-Como assim "e?...", ser ínfimo?
ANARCO-Ah tá! Já entendi...
NIHILISTA-E agora que você entendeu, não se sente o ser mais insignificante do Universo junto com todo o Universo?
ANARCO-Pô, por mais ilógico que isso te pareça, não.
NIHILISTA-Como não?!
ANARCO-Talvez, se eu vivesse um milhão de anos para cada ano de vida...
NIHILISTA-Você é anarquista, cara! Por favor! Reconheça que você é um ser doentio e alienado. Reconheça que você vai morrer em um mundo igual ou pior do que este em que você nasceu. Ou, vá lá, insignificantemente melhor. Não vai ter ruptura, não vai ter revolução, não vai ter mundo colorido comunista libertário! E ainda que essa hipótese absurda sem pé nem cabeça aconteça, um dia, as luzes se apagam e puf, buááá, meu mundo anarcocolorido se foi junto comigo e os meus amiguinhos anarcopunks pro saco. Percebe que eu falo de algo maior que esta merda de sociedade? Eu falo de como as coisas são e não de como elas estão e muito menos de como você quer que elas estejam. Custa assumir a sua infimidade, bípede insignificante?
ANARCO-Você fala muita merda. Sabe quando o Sol vai esfriar?
NIHILISTA-Dane-se o Sol e você junto com ele! Não importa se o Sol esfria, se esquenta, se evapora, se derrete, se um meteoro atinge a Terra, se acontece um Holocausto nuclear... O que você tem que entender na História da humanidade não é a duração dela, mas que todo barulho que a humanidade fizer vai ser, inevitavelmente, muito barulho por nada.
ANARCO-E você tem que entender que você andou em círculo e voltou ao repetitivo ponto de ter uma certeza sobre a sua existência quando o que te corrói por dentro na verdade é a incerteza. Não sou eu quem não consegue encarar a vida. É você, que prefere se agarrar a uma certeza trágica e nihilista a encarar a incerteza, o jogo de azar que é a vida. Você foge disso como um desesperado.
NIHILISTA-Jogo de azar? Pode ser... Pra mim é uma roleta russa. Eu pego um revólver com um tambor com lugar para o número de dias ou balas que cabem na minha existência e cada dia dou um tiro na cabeça até chegar ao derradeiro.
ANARCO-Se chegar...
NIHILISTA-Toda roleta russa tem ao menos uma bala no tambor.
ANARCO-Sem certezas... Nunca se sabe.
NIHILISTA-Que jogo seria pra você? Pôquer? Cuspe a distância?
ANARCO-Não! Pôquer tem blefe e depende muito da competência do jogador. A vida é mais randômica. Pra mim também é uma roleta, só que de cassino. Você tem as suas fichas e aposta no que acredita. Uns têm mais fichas que outros, mas cada ficha tem um valor misterioso. Você pode apostar metade delas no preto e metade no vermelho. Pode, se quiser, apostar tudo no 13. Pode ficar mudando as fichas de lugar ansiosamente, desesperadamente, enquanto a roleta gira.
NIHILISTA-Vai dar banca, otário! Zero! Zero-zero!
ANARCO-Talvez, mas essa aposta eu não posso fazer.

Continua...
(Será?)



Monday, September 27, 2004

Sexo e Morte

Sex And Death

Here we are still fighting
fighting for our lives!
Danger in the trenches
but we still survive!

We know who we are!
We know who we are!
We remember every move
(We still bear the scars!)

Don't look for maturity-
don't you even dare!
We are our own security,
and we don't even care!

We know what we do!
We know what we do!
We do what we must
(and we admire our attitude!)

Be damned, if you can't handle it,
(We) hope you break your neck-
Sex and Death!

Show 'em your guitar!
[guitar solo]

Here we are in trouble,
comin' every day
Slaughter in the alley?
(that would) make our bleedin' day!

We know all the rules!
We know all the rules!
We know more than you would like-
(cuz) we ain't in your school!

We are tired of you now-
we are sick and tired!
We are tired of hearing you
say we should be quiet!

You ain't worth our time!
You ain't worth our time!
You ain't worth a nickel, babe-
you ain't worth a dime!

We ain't gonna give it up
as long as we got breath:
Sex and Death!!

The answer to life's mystery
is simple and direct:
Sex and Death!

Runnin' down the highway
and we ain't tired yet:
Sex and Death!

Sex and Death!!!


"Acredito que o erotismo é a aprovação da vida até na morte. A sexualidade implica na morte, não somente no sentido de que os recém-chegados prolongam e substituem os desaparecidos, mas porque ela faz entrever a vida do ser que se reproduz. Reproduzir-se é desaparecer, e os seres assexuados mais simples se sutilizam ao se reproduzirem. Eles não morrem, se pela morte se entende a passagem da vida à decomposição, mas aquele que existia, ao se reproduzir, deixa de ser aquele que era (pois se torna duplo). A morte individual é apenas um aspecto do excesso proliferador do ser. A reprodução sexuada é em si mesma apenas um aspecto, o mais complicado, da imortalidade da vida garantida na reprodução assexuada. Da imortalidade, mas ao mesmo tempo da morte individual. Animal algum pode aceder à reprodução sexuada sem se acabar no movimento cuja forma acabada é a morte. De qualquer maneira, o fundamento da efusão sexual é a negação do isolamento do eu, que só conhece o desfalecimento ao se exceder, ao se ultrapassar no abraço em que a solidão do ser se perde. Quer se trate do erotismo puro (de amor-paixão) ou de sensualidade de corpos, a intensidade é maior na medida em que a destruição, a morte do ser transparecem. O que se chama de vício decorre desta profunda implicação da morte. E o tormento do amor desencarnado é tanto mais simbólico da verdade última do amor quanto a morte daqueles que ele uniu os aproxima e os enternece. Nenhum amor entre seres mortais..."

"O erotismo é a aprovação da vida até na morte".
Georges Bataille. A literatura e o mal.


E, depois de Lemmy e Bataille, é comigo...


Ele a viu passando por ali e, sem saber quem era, sem nenhum porquê, agarrou-a com apenas umas das mãos e constringiu-a. Ela desmantelou-se escapando por entre todas as frestas daqueles dedos enormes e caiu, sem forma, sem vida, sem sentido, nada, nihil... Nem o impacto sentiu.

Viver por viver? Morrer por morrer? Matar por matar?

Dar a luz por dar a luz?...

Quem é mais bárbaro? Mais inverossímil? Quem?!

Um cão? Um suicida sem um desespero? Um assassino sem uma paixão?

Deus?...



DIÁLOGOS A DOIS pt. I - Pelo Bem da Humanidade

--Vamos, Carlos! - diz Ana - Nós precisamos fazer amor.
--Amor? Mas eu te amo, ora... Já está feito!
--Mas precisamos fazer amor carnal.
--Como?! - surpreende-se Carlos. Era a primeira vez que via a palavra amor relacionada à palavra carne.
--Precisamos de contato físico. Tire a sua roupa e eu lhe mostro.
--Tirar a minha roupa? Não entendo...
--Tire que eu lhe explico. - diz Ana deixando sua saia cair aos seus pés.
Carlos fica incomodado com a semi-nudez de Ana. Cinco anos casados e não se lembrava direito de como ela era. Vira a esposa duas ou três vezes assim na vida.
A última peça e Ana está completamente nua. Carlos não consegue esconder um certo ar de nojo, ponta de um profundo asco que controlava dentro de seu ser. Ana não se importa. Vai ajudar o jovem e enrolado marido a despir-se.
--Vamos! Pense que vai tomar um banho, como sempre, e tira logo essa roupa.
--Pronto. Estamos nus. - diz ele impaciente, nervoso e tentando evitar olhar a vulva da mulher, que é apenas uma mancha negra e imprecisa no flanco da sua visão.
--Agora vou te mostrar como foder.
--Foder?!
--É! Foder, trepar, fazer amor, sexo... Tem vários nomes e expressões.
--Nossa... Pra que dão tanto nome há uma coisa que não presta?
--Você não sabe de nada! É um assunto e uma arte complexa, com muitas variações, categorias, especificações, subdivisões, técnicas, e por aí vai. - diz Ana dando à sua cara fria uma expressão de fascínio.
--E vocês fodem nesses debates, palestras, workshops, mesas-redondas, sei lá?
--Às vezes.
--E é bom?
--Sim. Psicologicamente é fantástico. Você se sente útil, fazendo um bem direto à sua espécie, entende? Mesmo que ainda seja só um treino. Com prática, dizem que dá até a impressão de um prazer quase físico. Com muita prática se pode sentir até prazer físico, que é o oposto da dor. Alguns iniciados chegam a ter orgasmos. Dizem que é um prazer físico, psicológico e espiritual indescritível.
--Sei... Tipo cães cruzando?
--Não! Muito melhor! Não somos cachorros. Mas agora vamos concretizar logo isso. Vamos foder e procriar. Você vai adorar.
--Não sei não...
--Vamos lá. Tá vendo o seu pênis?
--Sim.
--Então... Tá vendo a minha boceta?
--Boceta?
--Sim. Isso aqui ó. Vamos! Olhe pra cá!
--Olhei.
--Olha direito!
--Tá! Já vi. Pronto! Olhei três vezes, até...
--Pra começar, eu vou botar o seu pênis dentro da minha boca e vou chupá-lo...
--O quê?!?!?!?! Mas nem que o mundo acabe agora!
--MAS SE NÃO ACABA O MUNDO, ACABA A HUMANIDADE!!! Precisamos procriar... - controla-se Ana para não assustar o marido. O doutor a orientara nesse sentido. Sempre calma. Muita calma!
--E daí? Todo mundo morre. Um dia tem que acabar a humanidade, ora! Não fez segundo grau?!
--Mas não precisamos deixar isso acontecer. Basta fodermos.
--Ah não! Você entra pra essas seitas malucas aí e vem me enfiar no meio das suas loucuras. Você sabe que eu não sou nada idealista. Muito ônus pra pouco bônus. E dizem que foder é extremamente cansativo.
--Meu amor! Teremos um filho! O nosso filho! E ele será lindo! Parecido comigo e com você. Afinal, você só nasceu graças ao altruísmo de um casal. E se você não existisse?
--Ué? Se eu não existisse não existia. Que sofrimento ou prazer pode sentir o nada? E eu fui comprado. Não parido, ejaculado, esporrado, sei lá...
--Então! Não é ruim não existir?
Carlos olha a mulher com espanto e uma certa pena. Coitada. Se sente só e desocupada. Inútil, sem perspectiva, poucos amigos... Mas que terapia ocupacional maluca ela tinha que escolher!
--Então?! É ruim ou não é?
--Como vou saber, Ana?! - impacienta-se - Que pergunta! Eu nunca inexisti pra saber disso.
--Mas existir não é bom?
--Nem sempre.
--Por que não se mata então, seu CRETINO?! SE MATA SEU MERDA EGOÍSTA! FODA-SE A HUMANIDADE!!! FODA-SE VOCÊ!!!
--Acho meio difícil alguém da humanidade se foder... Só o pessoal dessa sua seita maluca mesmo.
--Olha... Vamos tentar, hem? - diz em tom meigo e olhar triste, mudando bruscamente de personalidade, lembrando-se dos conselhos do doutor. Isso é até persuasivo, mas de uma outra forma que Ana não pretende. Essas mudanças bruscas de personalidade assustam Carlos e lhe deixam com medo de contrariá-la.
--Está bem... - consente frustrado e coagido. - Você baba no meu pinto e?...
--E faço uma massagem, especial, até ele endurecer e ficar grande.
--Grande?!!!
--Sim! Enooorme! Se bem que varia...
--Não! Só faltava essa! Vai me aleijar?
--Não querido! Ele volta ao normal depois. Para os machos de antigamente quanto maior o pênis maior era o status.
--Pra você ver como o homem que se pensava civilizado ainda era um bosquímano... Mas e se meu pinto não voltar a ser pequeno?! Eu não quero ficar carregando peso à toa! Aliás! O que eu estou dizendo?! Duvido que ele fique grande.
--Ele fica grande e volta a ficar minúsculo. Eu te garanto.
--Sim... Tá bem... Vamos logo com isso. E depois?
--Depois você vai enfiá-lo na minha boceta. Aqui ó. Aqui, Carlinhos!... Olha pra cá! Olha, seu porra!
--Sim. Eu lembro onde é. Mas não basta fazer crescer, endurecer, babar no meu pinto... VOCÊ AINDA QUER METÊ-LO POR ONDE VOCÊ MIJA?!?!?!
--Calma, amor...
--Que doentio! Que seita de fanáticos doentios essa! Não vejo ética nessas perversões! Quer um filho?! Compre um e pronto! Isso é desculpa desse tal doutor aí, pra extravasar seus instintos subumanos e pervertidos! E vocês, trouxas, se sujeitam a isso! Porra! Que porcariada, Ana! Tem ! E outra coisa... Criança é um pé no saco. Por isso ninguém mais quer criá-las. Fora meu pinto crescer, depois o que vai crescer é a sua barriga! E, pelo que dizem, fica gigantesca por vários meses!
--Como você é tosco!
--Irrrrrgsh!!!!!! - enoja-se Carlos tapando os olhos.
--O que foi?!?!
--Sangue!
--Onde?
--Na boceta!
--Ah! Eu estou fértil! É isso, seu troglodita.
--E o que vai me pedir, agora? Que adube sua boceta fértil com meu esterco, plante batatas nela e regue-as com urina?
--Não. Que me penetre! Que ejacule! Que plante um filho em mim!
--Mijo, sangue, baba... Olha... Sinceramente, a humanidade que se foda. Quem tiver saco, que compre filhos e os crie. Se eu posso inexistir, por que a humanidade não pode também?
--Por que nossa espécie sumiria pra sempre!
--E eu não vou sumir pra sempre? Você não vai sumir também? A humanidade não é nada mais do que pessoas como eu e você. Se some um, ou dois, ou mil, ou todos, dá na mesma! E se você morresse com um tiro na cabeça ou com um meteoro que se chocou contra a Terra e matou todo mundo? Vai ter alguma diferença depois pra você ou pra alguém que morreu de tiro, câncer ou meteoro?
--Mas a humanidade...
--Mas a humanidade! Mas a humanidade! - remenda-a Carlos. - Ora! Só sabe falar isso sem entender o porquê?
--Está bem... Hoje passa... Mas eu vou levar as suas colocações ao doutor. Sou nova lá e não sei responder a tudo ainda. Mas se ele me esclarecer tim-tim por tim-tim, você vai ter que me fuder nem que eu tenha que te estuprar!
--Estuprar?! Que palavra bizarra. O que é isso?
--É um crime. Quando uma pessoa força a outra a fazer sexo.
--Então você estava me estuprando?
--Não! Pra eu te estuprar, eu teria que te agarrar a força e fazer sexo com você, te subjugando com a minha força física.
--Que monstruosidade! Como pode alguém se desesperar tanto por isso?
--Pra você ver como gostávamos de sexo. Perdemos nossos instintos primais. E isso é muito negativo.
--Ok, ok... Mas vista-se por favor. - diz Carlos pondo suas roupas antes que a sua esposa mudasse de idéia.
--Você devia estudar as antigas civilizações modernas. Os homens pagavam as mulheres para fazer isso, tá?! E homens e mulheres trepavam tanto que perdiam a conta. E quase nunca faziam por procriação! Era por prazer mesmo! Faziam isso até em grupo! E homens faziam com homens e mulheres com mulheres...
--Homem com homem não deve ser tão nojento. Como era? Lutavam espada? Hehehehe...
--Não. Um enfiava o pênis no cu do outro e ejaculava lá dentro. Fora outras coisas...
--O que é cu?! Melhor: nem me responda!
--É o ânus.
--Argh!
--Hehehe... Falarei com o doutor e veremos! Vá se preparando!


E por hoje chega de falar sobre sexo e morte.

Sunday, September 26, 2004

O controle

Tzzz! Conta tudo pra sua mãe Quico! Tzzz! ...ao Iraque. Bush diz que não aceita tzzz!...-driano. Rola bola para Robinho ali na meia-esquerda. Levo um! Levou outro e... E se jogooooou, Robiiinhooo... O juiz deiiixa tzzz!...-almente muito bonito. Podem ver a costura, o acabamento de primeira qualidade. E sai na promoção pra quem ligar aqui e agora por apenas tzzz!...dois ovos, salsinha, azeite, e uma pitada de tzzz! -Batatas?! "HUAHUAHUAHUAHUAHUAHUA..." Tzzz! -uando chega o período de acasala-tzzz! shhhhhhhhhhhhhhhhhzzzhhhshhhhvvvfffssstzzz! -Você me ama? -Claro que amo! Sempre te amei, Debbie. -E a Linda? -É tudo mentira! Eu nunca escrevi aquela carta. Só tenho olhos para você. Você sabe... Não sabe? -Não sei... O pessoal do colégio já não me suporta. Ela arruinou a minha vida. E você a ajudou! -Eu... -Ajudou! -Sim, mas no começo... -No começo o quê? No começo o quê, Stevenson? No começo que eu era uma feiosa ridícula de óculos tzzz!...-nhor! Se apega a ele, Selma! Confia nele! Dá uma chance pra ele? Só uma? -Dou, pastor! -Dê uma chance pro Senhor entraaar em seu coração, Selma. Por que Deeeus, Deus só quer o seu bem, Selma! O filho não ajuda? O marido, o marido também não? Nem a mãe? O piriquito? O papagaio? o, o, o canário da vizinha? É difícil? É! Mas o que é difícil pra Deus, Selma? -Nada, Pastor! Ele tudo pode! -Então, Selma?! Ele basta! Ele basta e sobra, Selma! E como sobra, Selma! E como sobra, você não faz idéia! Tzzz! -Aaah! Muito bom! -E o melhor é que se aproveita as sobras pro pudim de tzzz! (continua...)


Eu sei que a onomatopéia correta é "zap!", mas pra mim tem mais cara de tzzz!

Saturday, September 25, 2004

Viva a cultura de massa chinfrim brasileira!!!

Adoro os grupos de pagode e as duplas sertanejas que estão pendurados nas paredes dos quartos das empregadas e que invadem todos os programas dominicais na televisão! Adoro a Carla Perez e a Adriane Galisteu! Adoro cantores e dançarinas de Axé music! Adoro todos eles e, acima de tudo, seus stylists! Viva todos estes sabotadores e pervertidos!

Aviso do Alejandro (28/09/04 - 3h):
Vocês me obrigam a editar os posts: abaixo segue uma lista de discussão sobre um dos problemas do nosso mundo contemporâneo e eu nunca compraria uma camisa bem legal que acabasse de chegar nas lojas com uma estampa meio de zebra em verde e branco e dificilmente vou a lugares onde essa camisa abafaria. A minha desculpa pra ter lido isso é: pra escrever sempre gostei de ser um pouco como Zola (apesar de estar longe do naturalismo) e me acercar de outras realidades, mesmo as mais detestáveis e encontrar nelas as mesmas questões que se encontram em Shakespeare, Dante, Cervantes, enfim, nos clássicos. Só que, agora, a minha intenção é mais mesquinha: ridicularizar. Então segue o muro das lamentações dos seguidores de tendências estilosos...






Quero meu dinheiro de volta!!!
No inicio do verão passado comprei uma camisa bem legal que acabara de chegar nas lojas, ela tem uma estampa meio que de zebra em verde e branco e aonde ia com a camisa abafava, todo mundo curtia a minha camisa.
Bem, uns 2 meses depois estou zapeando os canais de TV e tenho o incrível azar de encontrar no programa da Galisteu a dupla sertaneja/pop/romântico/brega Pedro e Tiago e não é que um dos infelizes estava com uma camisa igualzinha a minha!!!! Que ódio, nunca mais tive coragem de colocar a camisa de novo, e me senti completamente brega por ter comprado essa camisa. Quero meu dinheiro de volta!!!
O que vcs fariam se fosse com vcs?

***

Tentaria esquecer o acontecido, mas que é BIZARRO uma dupla sertaneja/pop/romântico/brega estar usando uma camisa do Herchcovitch é e muito

***

Eu não acharia nada demais. Hoje em dia todos esses cantores contam com bons stylists. Se você quiser me dar a camisa, eu aceito. ;P

***

Rodolfo 8/28/2004 5:18 PM
Calmah!!!! Isso realmente é muito trash..... respira fundo se recupera e torça p/ não ver a mesma camisa em zebra cinza e com a etiqueta da carmin.... sim a carmim copiou essa camisah!!!
que raivah!!!!

Mas como o próprio ale disse: "Nem ligo pra's cópias"

Mas agente liga neh.... enfim.... acho que vc deveria usar a camisa várias vezes pq quem curte essas duplas nem sabe do que se trata!!! bjohhss see...

***

Oh duvida cruel 8/28/2004 6:35 PM
Gustavo,

Agora não tem mais jeito!!! Neste caso, sugiro que voce pense em algum amigo mais proximo e procure mais que depressa montar uma banda setaneja/pop/romântico/brega, como seus amigos Pedro e Tiago. Sendo que voce nao precisará se preocupar com o que vestir...

***

Oh... 8/28/2004 11:09 PM
Oh.. isso eh realmente grave!
Sem zuera..
Mas nem liga babe!
Essas duplinhas aih tão sempre com roupas mto boas... =/
E siimm.. Oh god.. como a Carmin copia roupas do Herchcovitch!
=[

***

MMM... Sei que isso é uma saia das mais justas...

Mas, do not worry, faça apenaas uma produção completamente diferente do que vc viu na TV, e dê a cara pra bater...

Eu sei, eu sei, duplinha sertaneja ninguém merece MESMO, né?
Mas nem esquenta, só capricha na atitude, idependente da quantidade de zebras que a blusa pareça ter, vai fechar... Podes crer...

***

desencana!! 9/1/2004 7:24 AM
Desencana, só o povo sem noção que assiste adriane galisteu é que viu a dupla. hehehehehheee

***

Como os pagodeiros que roubaram um look que não era deles, alguns cantores (ou grupos) de Axé também "tomaram emprestados" o que não lhes pertencia e assim foi com os "caipiras" que bem que poderiam continuar se vestindo de cowboys. São pobres de criação em suas músicas e no comportamento que elas geram. Incluindo aí as vestimentas. Isso já aconteceu comigo; com uma camiseta da Opera Rock. Meu zippo funcionou.

***

Se o trauma tiver sido grande mesmo, do tipo "apesar de linda, não quero mais ver essa camisa tão cedo", você pode tentar vendê-la a cantores na churrascaria mais próxima. Ou então você pode levar na brincadeira, convidar um amigo e formar uma dupla sertaneja também. Dizem por aí que ser trash tá na moda..
Porque como diz a célebre frase "Nada se cria, tudo se copia". (Parece que existem marcas levando isso à serio)

***

Aconteceu comigo! 9/3/2004 7:34 AM
Senti a mesma coisa qnd a Carla Perez colocou piercing no umbigo!!! Ninguém merece! Mesmo assim uso meu acessório até hj! Realmente é frustrante mais calma! Continue usando e abafando com sua camiseta! Fora que a maioria da população não viu o cantor com a camiseta = a sua! Eu por exemplo..... Se vejo esses cantores mudo de canal na hora!

***

Put@ merd@... tá eu sei q meu comentário não vai resolver as coisas, mas fico feliz por não ser o único frustrado a usar roupas e acessórios q celebridades cafonas usam logo depois... =o)
Tento pensar q eles contratam personal stylists competentes... sei lá... não q isso ajude mto!

***

Obrigado pela ajuda 9/3/2004 11:37 AM
Curti bastante os comments de vcs, mas formar uma dupla sertaneja de churrascaria não daria certo, infelizmente não tenho amigos desse naipe.
Como ela custou uma boa grana e não tô com vontade de me livrar dela, o jeito será deixar envelhecer alguns longos anos no armário, quem sabe vintage ela possa ficar muito mais interessante !!!

***

Tbm aconteceu comigo... 9/4/2004 7:11 PM
é, eu sei o q vc passou... Só q ñ era uma camiseta do alexandre... foi com uma camiseta da zapping.. mas a dupla era a mesma.. Eu ñ ia deixar de usar uma camiseta q eu adoro só pq dois sertanejos q nem sabem o mal q estao fazendo estao usando.. e quando disserem.. olha, vc tem uma camisa igual a do pedro e tiago.. responde: QUEM???

***

que mico! 9/7/2004 3:33 PM
putz... acho que nunca usaria novamente tambpem... mas infelismente acho que o seu dinheiro de volyta vc nem tem direirto nbé! afinall ninguem te obrigou a compra-la... todos corremos esse risco! bjus

***

Como já disseram... 9/10/2004 6:18 AM
...alguns cantores, independente do estilo que seguem, contratam stylists e acaba acontecendo isso...comigo foi bem parecido...vi um cara de um grupo de pagode, lotado de corrente e pulseira de ouro usando a mesma estampa de uma camiseta que eu tenho da Yes, Brazil com um índio enorme estampado frente-costas-braços, mas como ela marca muito pelo desenho, uso a cada 3, 4 meses, daí o trauma foi se dissipando!!



Decifra-me ou devoro-te!

Já repararam na semelhança que existe entre a poesia e a criptografia? Muitos poemas são como enigmas, muitos poetas como esfinges ([outros só efígies) Quanta coisa não se diz, principalmente poetas, graças a coincidência de sons ou grafemas. Não fosse a semelhança entre os significantes esfinge/efígie, eu jamais teria feito a analogia com os seus significados. Pode-se dizer, destarte, que esta arte está, mais do que nunca (menos do que sempre), limitadamente ilimitada pelo idioma. E que escrever em outra língua é se sujeitar a novas coincidências ou relação entre significantes. E isso é impressionante, porque coisas essenciais são expressas graças a coincidência de oclusivas, fricativas, bilabiais, guturais, vogais abertas, semi-abertas, fechadas etc]. Algumas poesias são imagens cotidianas, demasiado humanas e/ou banais criptografadas. Por exemplo, esse soneto de Rafael Alberti:

Cúbreme, amor, el cielo de la boca
con esa arrebatada espuma extrema,
que es jazmín del que sabe y del que quema,
brotado en punta de coral de roca.

Alóquemelo, amor, su sal, aloca
tu lancinante aguda flor suprema,
doblando su furor en la diadema
del mordiente clavel que la desboca.

¡Oh ceñido fluir, amor, o bello
borbotar temperado de la nieve
por tan estrecha gruta en carne viva,

para mirar cómo tu fino cuello
se te resbala, amor, y se te llueve
de jazmines y de estrellas de saliva!

E esse soneto me fez lembrar,
de uma infame atriz brasileira
que disse que beijo tem gosto de cuspe.

Mas voltando ao tema. O Alberti simplesmente pegou a cena de um beijo e a criptografou. Ele só não criptografou cuello porque rimou com bello. Tudo bem, algums termos não estão criptografados ou já são poéticos por conta própria (cielo de la boca). Por isso o leitor frustrado de um poema é um Édipo que não se tornou rei (mas em compesação não matou o pai e nem comeu a mãe). Decifra-me ou devoro-te diz a poesia pro leitor; cifra-me ou vomito-te, diz a vida pro poeta.

E por falar em cifrar, aqui vão umas cifras (algumas parodiadas, outras emprestadas, outras inventadas) onde tento ser Lorca escrevendo o próprio epitáfio. Com certeza essa poesia vai mudar já que estou lendo um livro sobre o assassinato de García Lorca e já que escrevi por empolgacão antes de terminar de ler. Na verdade, tento, não ser, mas, ter o estilo de Lorca, porque Lorca não se auto-elogiaria dessa maneira, nem morto!, pero Dali, ¡por supuesto!

La Pasión de Federico

Suenan las doce en el reloj

Cuchillo de plomo rasca el cielo

Cae el agua harapienta

Llena el campo de Granada

Olor de sangre y rosas

Color de sangre y rosas...

Es que cuando sonaban las doce

hombres bajos muy pequeños

con ojos que no iban mas allá

siempre abajo de sus tejas

Asesinaron el cielo ancho

El cielo entero, el cielo vivo

El día en pleno medio día

Bajo la sombra de un olivo.

Las nubes rojas vendas del cielo

Se deshicieron en harapos

Se deshicieron los bordados

Y el viento llevó la sábana cruda

Que cubrió el sol de medio día

Y lo volvió de entera noche.

¡Asesinaron Federico!

entre Joaquín y Francisco

sus dos ladrones

(banderilleros anarquistas)

En su madero de oliva.

Pero murió en la plaza,

Y no era el torero, sino el toro

O el garañon que daba coces,

contra los muros de las casas

de Bernada Alba y Andalucía.

Resurgió en el centro del corral

de España

del mundo

¡Blanco!

Doble de grande

llenando toda la oscuridad.

Friday, September 24, 2004

RASG!

Um dos primeiros contos que eu escrevi na minha vida de escritor assumido (embora só pros amigos e conhecidos). A astrologia explica porque eu escrevo coisas tão diferentes: eu sou geminiano. Só faltava eu acreditar em astrologia e seria uma questão a menos. Lá vai.



RASG!

Zuleide estava irritada. Nunca tirava sua hora de almoço no horário predeterminado, mas devia retornar no minuto de sempre. Às vezes nem valia a pena sair da loja. Mas tem dia que a fome é tanta... Sua hesitação acabava por fazê-la perder o tempo. O movimento em sua loja crescia cada vez mais. É impressionante como as pessoas estão comprando. Os shoppings sempre lotados. Zuleide, ou simplesmente Zu (nunca zuzu!), saía faminta da loja. Dessa vez, não almoçava havia três dias, mas hoje estava disposta a comer bem. Tinha se preparado psicologicamente, não daria um minuto à hesitação. Vontade de ferro e nervos de aço. Não havia o que temer. Estava preparada. E afinal, todos comem! Não comem?

Entrou num restaurante a quilo da praça de alimentação do shopping: "Il Sapore della Vita". Foi logo agarrando um prato. Mostrou coragem: arroz, feijão, suflê de espinafre, peito de frango grelhado, batata-palha, seleta de legumes e um tamanduá. Os clientes olhavam o prato de Zuleide e se entreolhavam estupefatos. Um ancião com um olho e um grão de grão-de-bico em um prato fundo de sopa sem sopa dirigiu-se a Zuleide com voz pigarrenta, grave e cansada:

--Moça, pode me dar uma batata-palha e um tamanduá depois de pesar o seu prato? Zuleide, consternada, observando o solitário grão-de-bico no prato do velhinho, consentiu parcialmente:

--Sim, senhor. Eu te dou uma batata-palha. Te dou até duas, mas só não te dou o meu tamanduá por que só tenho esse mesmo. Senão até te dava ele...

O ancião agradece, pigarrento e compreensivo, mas dispensa a segunda batata palha:

--Só quero uma batatinha mesmo, moça.

Zuleide põe o prato sobre a balança na frente dos olhos do boquiaberto balanceiro e sorri nervosa. O balancista, sentado sem pernas, em sua cadeira de rodas, declara em tom alto e solene: "setecentos e trinta e dois gramas". Zuleide ruboriza. Cochichos. Burburinhos se espalham pelo refeitório. O balançador, que já se punha indiferente e até meio desdenhoso, pergunta:

--O que vai beber?

--Mercúrio cromo.

--Pequeno, médio ou grande?

--Quantos eme-éles tem o médio?

--Trezentos, quinhentos, setecentos – responde o da balança, já impaciente.

--Grande, por favor.

--Com ou sem gás?

--Sem.

--Sobremesa?

--Hã...chovê...

--SOBREMESA?! Sim ou não?

--Não, obrigada.

O ancião pidão, outra vez, pergunta a Zuleide:

--Pode me dar um golinho do seu mercúrio, moça?

--Posso sim – consentiu, Zu. Dou até dois. – mas o ancião recusou novamente a segunda oferta. Nisso, um tamanduá, célere, se esticou do bandejão de tamanduás e deu uma linguada, chupando a única e solitária ervilha do prato fundo de sopa sem sopa do ancião. "Eia!", exclamou o ancião. "Meu único grão!" Uma freguesa indignada se manifestou: "Isso é um desafôro! Cadê o milho dele?" O balancê-balancê acalmou os ânimos:

--Calma gente! Vamos repôr tudo! O que o senhor perdeu, afinal? Um choclo ou uma arveja?

--Perdi tudo! Um grão de grão-de-bico! – afirmou o idoso seguro de si.

O filho da freguesa pressionava "o bala":

--Porra, centopéia! Anda logo! Tô cum fome!

O balança mas não cai se irrita, mas não faz nada.

--Toma aqui! – chega uma garçonete colocando, eficientemente e eficazmente (como manda o gerente), um grão-de-bico no meio do prato fundo de sopa sem sopa do velho. O ancião sorri satisfeito.

RASG! "O balança" puxa da máquina o boleto de consumo e o entrega a Zuleide junto com um copo grande de mertiolate. Mas eu pedi mercúrio cromo! – protestou Zu. Ah! Deixa pra lá.

Zuleide pôs duas batatas-palhas no prato do ancião e ele imediatamente petelecou uma delas no olho do Tamanduá. Desculpe, diz o um pé na cova para Zuleide e depois dá uma bebericada no copão dela. Enfim, faminta e ansiosa, Zuleide foi sentar-se.

Quando Zuleide sentou e agarrou ansiosa garfo e faca, o tamanduá se enroscou no seu pescoço como um cachecol ou uma preguiça e dormiu. Zuleide o espetou com o garfo e... Já pro prato, bicho! O Tamanduá retornou ao prato lento e preguiçoso. Se acomodou como um gato em cima do suflê macio. Comeu umas batatas-palhas e dormiu. Zuleide, faminta, comeu tudo; até o tamanduá que fazia a sua siesta. Se levantou, respirou fundo e foi até ao caixa. Começou a caminhar quando, abruptamente, um tiro seco ressôou pelo restaurante: "TÔU"!

--Aaaaaah! – gritou Zuleide, interrompendo a caminhada, sacudindo os braços e derramando todo o mertiolate (mais da metade) que restava em seu copo, no chão, na roupa e nos outros clientes.

Todos abraçaram contra o peito os seus boletos de consumo. O balanceador, sentado em frente à balança, olhou para todos e gesticulou advertidamente com o dedo indicador. Todos pressionaram mais forte contra o peito os boletos.

Uma múmia abandonou a mesa desesperada e fugiu mancando. Uma mulher e três crianças, carregando várias sacolas de lojas, correram atrás dela. Calma, querido!, gritava a mulher

Zuleide correu desesperada até a registradora. Ofegante, sorriu tensa para a moça do caixa que parou de fazer as unhas dos seus dedos (dois mindinhos e dois indicadores no total) e olhou desconfiada para Zuleide. Zu disse a ela, sacudindo o boleto:

--Consumi quinhentos e trinta e dois gramas e setecentos “ml” de mercúrio cromo.

Nesse ínterim, surge uma garçonete, eficientemente, eficazmente, trocando o copo de mertiolate vazio, por um cheio. Zuleide agradece frustrada. A garçonete gesticula positivamente mostrando o dedão, mas não diz nada. A caixa, observando, indaga inquisidora:

--Mercúrio, você disse?

--Oh, não! Perdão! Hehehe. É...é...é mer, mer... Mertiolate! Tudo a mesma mer!... Hehehe...

--Não, senhorita. Mertiolate não é mercúrio. – afirma seriamente. – São mercadorias diferentes.

--Mas o preço é o mermo.

--Cale-se!

A caixa bateu cuidadosamente com os dedos de unhas esmaltadas na registradora e...RASG!

--Pode pagar ali, naquela sala, número 3-B.

--Poxa, eu tenho S$5...

--Cinco surreais?! Você roubou o seu patrão?

--Não! Eu o tinha guardado há muito tempo. Quase de lembrança.

--Deixe-me ver a nota – diz a caixa inclinando-se sobre a registradora. Zuleide mostra a nota furtivamente.

--A nota me parece nova! Você roubou!

--É que eu nunca usei e ela não circulou. Ficou novinha e intacta.

--Me deixe analisá-la, então! Quero ver a data! Quem não deve não teme.

--Vai me fazer a conta por S$5, então?

--Não. – diz a caixa retrocedendo. Ninguém com notas ou mesmo moedas come aqui. Como vou explicar isso ao meu chefe? E mesmo que ficasse só entre nós, quem iria aceitar notas de um mutilado?

--Os árabes pelo menos se mutilam por motivos mais drásticos! Merda!

--Sala 3-B. – diz a caixa voltando ao seu ar entediado. – Próximo!

Zuleide dirigiu-se trêmula para a sala 3-B. Ao abrir a porta deparou-se com três homens musculosos, altos, fortes, íntegros e de cabeças raspadas. Todos vestidos com camisas pólo de estampas trilíngües nas costas: "Il Sapore della Vita" – ristorante – self service – comida a quilo". Os três espancam a correntadas, porretadas e toalha molhada um homem extremamente obeso e rosa, mas já quase vermelho. Dois rapazes, também uniformizados, íntegros e de aspecto semelhante ao dos outros três, cumprimentam Zuleide:

--Boa tarde, dona. Quanto deu?

--Trinta e cinco – murmura, Zuleide.

--Uuuu!...

Um dos rapazes, já irritado com a gritaria do gordo cor de vinho, entrega uma lista à Zuleide:

--As condições de pagamento, dona.

Zuleide pega. Lê indecisa a lista. O mesmo rapaz pede pressa em tom ainda educado:

--Olha, dona, tem muito cliente aqui hoje. Não demore muito, por favor.

Zuleide faz que sim com a cabeça e passa o dedo indicador, trêmulo, de cima abaixo na lista. Seus olhos, no entanto, não acompanhavam o dedo.

Uma gota de suór pinga da testa e se espatifa nas condições de pagamento.

--Pooorra! – reclama abrindo os braços um dos rapazes.

--Desculpe – balbucia, Zuleide.

--Se adianta aí, moça. – disse o outro rapaz com um fósforo entre os dentes, aparentemante mais habituado ou conformado com a profissão que não era fácil, mas era, ao menos, uma das raras ocupações remuneradas.

--Tá. E... E... E-e se eu escolher abuso sexual? Sou eu quem escolhe o estilo?

Os olhos dos dois rapazes percorrem Zuleide de cima a baixo e por toda parte. Ela novamente ruboriza. Os dois se entreolham pálidos. Ambos sorriem simpáticos para ela e um deles diz:

--Aí, dona. Escolhe outra parada aí, que a gente alivia pra você.

--É! – aconselha o outro – Por que você não escolhe espancamento? A gente te divide em duas partes. Uma metade pra agora e a outra metade pra daqui a um mês.

--Hum... Não sei. E a navalhada? Quantas são?

--Não é por navalhadas, mas por profundidade de corte. A navalhada é sempre uma. – esclarece o menos impaciente.

--E vai ficar muito profunda? – preocupa-se Zuleide.

--Não, dona! A gente já não te disse que vai dar uma aliviada pro teu lado? – diz o mais impaciente.

--E eu vou precisar ir ao médico?

--Médico pra quê, dona? Pra trocar um ferimento por outro muito maior?

--Ai, meu Deus!

--Vai com fé, dona.

--Tá. Vou pagar dessa forma: uma navalhada.

--Pode ser na barriga? – pergunta o outro rapaz sacando do bolso o instrumento de cobrança.

--Na barriga não! Acabei de comer. No bumbum, por favor.

--Sem problemas, dona. – diz o rapaz iniciando a cobrança:

RASG!


Alejandro Augusto Sainz de Vicuña Etc.