Tuesday, September 28, 2004

DIÁLOGOS A DOIS pt. II - O Anarco-punk e o Nihilista


NIHILISTA-Por que matou o grilo?
ANARCO-Sei lá. Acho que só pra ver ele morrer mesmo, assim, do nada, sem motivo, gratuitamente. E eu ainda saio impune.
NIHILISTA-Parabéns. Um filhote de desembargador não teria feito melhor.
ANARCO-Uma existência interrompida brutalmente... Você acha que existe ato mais hediondo do que tirar uma vida sem motivo?
NIHILISTA-Sim, tirar muitas vidas sem motivo.
ANARCO-Claro. Mas existe ato mais hediondo do que um holocausto onde o genocida não se dá nem ao trabalho de justificar a matança?
NIHILISTA-E justificar faz alguma diferença?
ANARCO-Faz. Desde que se acredite na justificativa. Eu falo em cometer um genocídio como quem chuta uma lata na rua. Existe algo mais hediondo do que isso?
NIHILISTA-Você completamente nu.
ANARCO-Porra!
NIHILISTA-Certo... Tem sim. Tem coisa pior.
ANARCO-Pior?! Como assim?!
NIHILISTA-Pior do que tirar vidas sem motivo é criar uma vida sem motivo. Qual filho já não disse aos pais que não pediu pra nascer? É como dizer: Eu preferiria nunca ter existido, eu preferiria nunca ter que preferir. Eu não pedi prazer nem dor, não pedi amor nem ódio, não pedi verdade nem mentira, não pedi diversão nem tédio, não pedi certeza nem dúvida. Por que não deixam o Nada quieto na dele? Por que não o deixam seguir sendo o que sempre foi?
ANARCO-Você só quer arranjar um motivo filosófico pra gostar ainda menos dos seus pais.
NIHILISTA-E Deus é ainda pior do que os meus pais e do que todos aqueles que se reproduzem! Quantas vidas ele não criou sem motivo? Um universo inteiro sem motivo algum! Por que incomodar o Nada que desdenha do Absoluto, do transcendente, das utopias e até dos bons e fúteis momentos de uma vida qualquer? Não existe motivação para criar o que quer que seja. E criar é como um vírus, uma peste, empesteia o Nada, destrói ele. Uma criação leva a outras e a outras e a mais outras. Criar é a maior de todas as contradições, ou a única contradição relevante: criar é perturbar a única coisa plena e absoluta, o Nada, para depois tentar, em vão, criando e criando, alcançar o absoluto, que digo, com segurança, é o Nada.
ANARCO-Mas toda criatura pode escolher entre viver e o nada. Toda criatura pode decidir se acredita que veio do nada e terminará em nada; se acredita em um Criador ou no acaso ou se não acredita em nada, se ignora, se duvida... Eu, enquanto criatura, posso, se assim creio, voltar a ser nada. Mas e se o Nada não existir como aquilo que inexiste? Se o Nada for apenas uma espera? Ou uma terceira coisa?
NIHILISTA-Ok. Eu sou uma criatura e acho que viver não vale a pena. Eu acredito no nada e quero me matar. Por que não consigo? Porque me foi dado o maldito instinto de auto-preservação, de sobrevivência! Eu pedi esta merda a alguém?
ANARCO-Não. Mas se matar pode ser tão simples e rápido que instinto algum seria problema. O problema é que você não tem convicção no Nada. E essa dúvida te come por dentro porque te impede de ser um nihilista convicto. Você sente raiva por não poder ser plenamente e tranqüilamente o que se propõe a ser. Você pode se dar um tiro na cabeça e em seguida ver que a escuridão definitiva não veio. Vai ser patético. "Ih, que merda! Eu ainda penso, logo existo!" E o injusto é que se você triunfar, não vai ter nem tempo de sorrir.
NIHILISTA-Não faria nem questão de sorrir, muito menos de triunfar. Triunfar sobre o quê? Se eu quero mais é que tudo se foda. E você? Não se sente angustiado por viver sem ter o conforto e a certeza de uma finalidade para a sua vida? Se você luta por alguma coisa, por justiça, se essa é a sua escolha, você está correndo o mesmo risco de ser patético como eu serei ao me dar um tiro na cabeça.
ANARCO-Sim, mas é melhor que assim seja.
NIHILISTA-Como? Não sente raiva por viver sem ter pedido para existir? Sem ter coragem ou certeza para se matar e acabar com esse absurdo? Ou para lutar por justiça sem ser em vão? Se Deus existe, eu sinto raiva dele por me criar e não explicar as regras do jogo.
ANARCO-Tudo bem, mas se Deus te criasse e desse uma finalidade à sua existência e à existência dos outros, você chamaria ele de Fascista.
NIHILISTA-E eu estaria coberto de razão!
ANARCO-Ou seja, a única forma de você não se ressentir com a vida é inexistindo.
NIHILISTA-Ou quando eu estou curtindo ela adoidado.
ANARCO-E esses momentos não fazem valer a pena estar vivo?
NIHILISTA-Acho que não. Você comeria um sorvete sabor merda com saborosíssimos pedacinhos de chocolate?
ANARCO-Valendo cinqüentinha?
NIHILISTA-Valendo a sua alma.
ANARCO-Pfff...
NIHILISTA-Então tá, eu vou destruir esse assunto te contando uma pequena história.
ANARCO-Pequena mesmo?
NIHILISTA-Sim. Apesar de ser História com "H" maiúsculo.
ANARCO-História do Brasil ou Geral?
NIHILISTA-Digamos que seja História Geral. Vamos chamar essa breve exposição de:

"HISTÓRIA BRUTALMENTE PRECISA E CONCISA DA HUMANIDADE SOB UMA PERSPECTIVA MAGNÂNIMA"

ANARCO-Gostei do nome. Diga lá...
NIHILISTA-Lá vai... De um minúsculo ponto irrompeu-se uma explosão. Dessa explosão se formaram estrelas. Ao redor de uma delas formou-se um planeta onde surgiu um ser pretensioso que inventou o conhecimento. Algum tempo depois a estrela esfriou e a vida no planeta acabou junto com o ser pretensioso que inventou o conhecimento.
ANARCO-E?...
NIHILISTA-Como assim "e?...", ser ínfimo?
ANARCO-Ah tá! Já entendi...
NIHILISTA-E agora que você entendeu, não se sente o ser mais insignificante do Universo junto com todo o Universo?
ANARCO-Pô, por mais ilógico que isso te pareça, não.
NIHILISTA-Como não?!
ANARCO-Talvez, se eu vivesse um milhão de anos para cada ano de vida...
NIHILISTA-Você é anarquista, cara! Por favor! Reconheça que você é um ser doentio e alienado. Reconheça que você vai morrer em um mundo igual ou pior do que este em que você nasceu. Ou, vá lá, insignificantemente melhor. Não vai ter ruptura, não vai ter revolução, não vai ter mundo colorido comunista libertário! E ainda que essa hipótese absurda sem pé nem cabeça aconteça, um dia, as luzes se apagam e puf, buááá, meu mundo anarcocolorido se foi junto comigo e os meus amiguinhos anarcopunks pro saco. Percebe que eu falo de algo maior que esta merda de sociedade? Eu falo de como as coisas são e não de como elas estão e muito menos de como você quer que elas estejam. Custa assumir a sua infimidade, bípede insignificante?
ANARCO-Você fala muita merda. Sabe quando o Sol vai esfriar?
NIHILISTA-Dane-se o Sol e você junto com ele! Não importa se o Sol esfria, se esquenta, se evapora, se derrete, se um meteoro atinge a Terra, se acontece um Holocausto nuclear... O que você tem que entender na História da humanidade não é a duração dela, mas que todo barulho que a humanidade fizer vai ser, inevitavelmente, muito barulho por nada.
ANARCO-E você tem que entender que você andou em círculo e voltou ao repetitivo ponto de ter uma certeza sobre a sua existência quando o que te corrói por dentro na verdade é a incerteza. Não sou eu quem não consegue encarar a vida. É você, que prefere se agarrar a uma certeza trágica e nihilista a encarar a incerteza, o jogo de azar que é a vida. Você foge disso como um desesperado.
NIHILISTA-Jogo de azar? Pode ser... Pra mim é uma roleta russa. Eu pego um revólver com um tambor com lugar para o número de dias ou balas que cabem na minha existência e cada dia dou um tiro na cabeça até chegar ao derradeiro.
ANARCO-Se chegar...
NIHILISTA-Toda roleta russa tem ao menos uma bala no tambor.
ANARCO-Sem certezas... Nunca se sabe.
NIHILISTA-Que jogo seria pra você? Pôquer? Cuspe a distância?
ANARCO-Não! Pôquer tem blefe e depende muito da competência do jogador. A vida é mais randômica. Pra mim também é uma roleta, só que de cassino. Você tem as suas fichas e aposta no que acredita. Uns têm mais fichas que outros, mas cada ficha tem um valor misterioso. Você pode apostar metade delas no preto e metade no vermelho. Pode, se quiser, apostar tudo no 13. Pode ficar mudando as fichas de lugar ansiosamente, desesperadamente, enquanto a roleta gira.
NIHILISTA-Vai dar banca, otário! Zero! Zero-zero!
ANARCO-Talvez, mas essa aposta eu não posso fazer.

Continua...
(Será?)



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