Saturday, September 25, 2004

Decifra-me ou devoro-te!

Já repararam na semelhança que existe entre a poesia e a criptografia? Muitos poemas são como enigmas, muitos poetas como esfinges ([outros só efígies) Quanta coisa não se diz, principalmente poetas, graças a coincidência de sons ou grafemas. Não fosse a semelhança entre os significantes esfinge/efígie, eu jamais teria feito a analogia com os seus significados. Pode-se dizer, destarte, que esta arte está, mais do que nunca (menos do que sempre), limitadamente ilimitada pelo idioma. E que escrever em outra língua é se sujeitar a novas coincidências ou relação entre significantes. E isso é impressionante, porque coisas essenciais são expressas graças a coincidência de oclusivas, fricativas, bilabiais, guturais, vogais abertas, semi-abertas, fechadas etc]. Algumas poesias são imagens cotidianas, demasiado humanas e/ou banais criptografadas. Por exemplo, esse soneto de Rafael Alberti:

Cúbreme, amor, el cielo de la boca
con esa arrebatada espuma extrema,
que es jazmín del que sabe y del que quema,
brotado en punta de coral de roca.

Alóquemelo, amor, su sal, aloca
tu lancinante aguda flor suprema,
doblando su furor en la diadema
del mordiente clavel que la desboca.

¡Oh ceñido fluir, amor, o bello
borbotar temperado de la nieve
por tan estrecha gruta en carne viva,

para mirar cómo tu fino cuello
se te resbala, amor, y se te llueve
de jazmines y de estrellas de saliva!

E esse soneto me fez lembrar,
de uma infame atriz brasileira
que disse que beijo tem gosto de cuspe.

Mas voltando ao tema. O Alberti simplesmente pegou a cena de um beijo e a criptografou. Ele só não criptografou cuello porque rimou com bello. Tudo bem, algums termos não estão criptografados ou já são poéticos por conta própria (cielo de la boca). Por isso o leitor frustrado de um poema é um Édipo que não se tornou rei (mas em compesação não matou o pai e nem comeu a mãe). Decifra-me ou devoro-te diz a poesia pro leitor; cifra-me ou vomito-te, diz a vida pro poeta.

E por falar em cifrar, aqui vão umas cifras (algumas parodiadas, outras emprestadas, outras inventadas) onde tento ser Lorca escrevendo o próprio epitáfio. Com certeza essa poesia vai mudar já que estou lendo um livro sobre o assassinato de García Lorca e já que escrevi por empolgacão antes de terminar de ler. Na verdade, tento, não ser, mas, ter o estilo de Lorca, porque Lorca não se auto-elogiaria dessa maneira, nem morto!, pero Dali, ¡por supuesto!

La Pasión de Federico

Suenan las doce en el reloj

Cuchillo de plomo rasca el cielo

Cae el agua harapienta

Llena el campo de Granada

Olor de sangre y rosas

Color de sangre y rosas...

Es que cuando sonaban las doce

hombres bajos muy pequeños

con ojos que no iban mas allá

siempre abajo de sus tejas

Asesinaron el cielo ancho

El cielo entero, el cielo vivo

El día en pleno medio día

Bajo la sombra de un olivo.

Las nubes rojas vendas del cielo

Se deshicieron en harapos

Se deshicieron los bordados

Y el viento llevó la sábana cruda

Que cubrió el sol de medio día

Y lo volvió de entera noche.

¡Asesinaron Federico!

entre Joaquín y Francisco

sus dos ladrones

(banderilleros anarquistas)

En su madero de oliva.

Pero murió en la plaza,

Y no era el torero, sino el toro

O el garañon que daba coces,

contra los muros de las casas

de Bernada Alba y Andalucía.

Resurgió en el centro del corral

de España

del mundo

¡Blanco!

Doble de grande

llenando toda la oscuridad.

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