Friday, September 24, 2004

RASG!

Um dos primeiros contos que eu escrevi na minha vida de escritor assumido (embora só pros amigos e conhecidos). A astrologia explica porque eu escrevo coisas tão diferentes: eu sou geminiano. Só faltava eu acreditar em astrologia e seria uma questão a menos. Lá vai.



RASG!

Zuleide estava irritada. Nunca tirava sua hora de almoço no horário predeterminado, mas devia retornar no minuto de sempre. Às vezes nem valia a pena sair da loja. Mas tem dia que a fome é tanta... Sua hesitação acabava por fazê-la perder o tempo. O movimento em sua loja crescia cada vez mais. É impressionante como as pessoas estão comprando. Os shoppings sempre lotados. Zuleide, ou simplesmente Zu (nunca zuzu!), saía faminta da loja. Dessa vez, não almoçava havia três dias, mas hoje estava disposta a comer bem. Tinha se preparado psicologicamente, não daria um minuto à hesitação. Vontade de ferro e nervos de aço. Não havia o que temer. Estava preparada. E afinal, todos comem! Não comem?

Entrou num restaurante a quilo da praça de alimentação do shopping: "Il Sapore della Vita". Foi logo agarrando um prato. Mostrou coragem: arroz, feijão, suflê de espinafre, peito de frango grelhado, batata-palha, seleta de legumes e um tamanduá. Os clientes olhavam o prato de Zuleide e se entreolhavam estupefatos. Um ancião com um olho e um grão de grão-de-bico em um prato fundo de sopa sem sopa dirigiu-se a Zuleide com voz pigarrenta, grave e cansada:

--Moça, pode me dar uma batata-palha e um tamanduá depois de pesar o seu prato? Zuleide, consternada, observando o solitário grão-de-bico no prato do velhinho, consentiu parcialmente:

--Sim, senhor. Eu te dou uma batata-palha. Te dou até duas, mas só não te dou o meu tamanduá por que só tenho esse mesmo. Senão até te dava ele...

O ancião agradece, pigarrento e compreensivo, mas dispensa a segunda batata palha:

--Só quero uma batatinha mesmo, moça.

Zuleide põe o prato sobre a balança na frente dos olhos do boquiaberto balanceiro e sorri nervosa. O balancista, sentado sem pernas, em sua cadeira de rodas, declara em tom alto e solene: "setecentos e trinta e dois gramas". Zuleide ruboriza. Cochichos. Burburinhos se espalham pelo refeitório. O balançador, que já se punha indiferente e até meio desdenhoso, pergunta:

--O que vai beber?

--Mercúrio cromo.

--Pequeno, médio ou grande?

--Quantos eme-éles tem o médio?

--Trezentos, quinhentos, setecentos – responde o da balança, já impaciente.

--Grande, por favor.

--Com ou sem gás?

--Sem.

--Sobremesa?

--Hã...chovê...

--SOBREMESA?! Sim ou não?

--Não, obrigada.

O ancião pidão, outra vez, pergunta a Zuleide:

--Pode me dar um golinho do seu mercúrio, moça?

--Posso sim – consentiu, Zu. Dou até dois. – mas o ancião recusou novamente a segunda oferta. Nisso, um tamanduá, célere, se esticou do bandejão de tamanduás e deu uma linguada, chupando a única e solitária ervilha do prato fundo de sopa sem sopa do ancião. "Eia!", exclamou o ancião. "Meu único grão!" Uma freguesa indignada se manifestou: "Isso é um desafôro! Cadê o milho dele?" O balancê-balancê acalmou os ânimos:

--Calma gente! Vamos repôr tudo! O que o senhor perdeu, afinal? Um choclo ou uma arveja?

--Perdi tudo! Um grão de grão-de-bico! – afirmou o idoso seguro de si.

O filho da freguesa pressionava "o bala":

--Porra, centopéia! Anda logo! Tô cum fome!

O balança mas não cai se irrita, mas não faz nada.

--Toma aqui! – chega uma garçonete colocando, eficientemente e eficazmente (como manda o gerente), um grão-de-bico no meio do prato fundo de sopa sem sopa do velho. O ancião sorri satisfeito.

RASG! "O balança" puxa da máquina o boleto de consumo e o entrega a Zuleide junto com um copo grande de mertiolate. Mas eu pedi mercúrio cromo! – protestou Zu. Ah! Deixa pra lá.

Zuleide pôs duas batatas-palhas no prato do ancião e ele imediatamente petelecou uma delas no olho do Tamanduá. Desculpe, diz o um pé na cova para Zuleide e depois dá uma bebericada no copão dela. Enfim, faminta e ansiosa, Zuleide foi sentar-se.

Quando Zuleide sentou e agarrou ansiosa garfo e faca, o tamanduá se enroscou no seu pescoço como um cachecol ou uma preguiça e dormiu. Zuleide o espetou com o garfo e... Já pro prato, bicho! O Tamanduá retornou ao prato lento e preguiçoso. Se acomodou como um gato em cima do suflê macio. Comeu umas batatas-palhas e dormiu. Zuleide, faminta, comeu tudo; até o tamanduá que fazia a sua siesta. Se levantou, respirou fundo e foi até ao caixa. Começou a caminhar quando, abruptamente, um tiro seco ressôou pelo restaurante: "TÔU"!

--Aaaaaah! – gritou Zuleide, interrompendo a caminhada, sacudindo os braços e derramando todo o mertiolate (mais da metade) que restava em seu copo, no chão, na roupa e nos outros clientes.

Todos abraçaram contra o peito os seus boletos de consumo. O balanceador, sentado em frente à balança, olhou para todos e gesticulou advertidamente com o dedo indicador. Todos pressionaram mais forte contra o peito os boletos.

Uma múmia abandonou a mesa desesperada e fugiu mancando. Uma mulher e três crianças, carregando várias sacolas de lojas, correram atrás dela. Calma, querido!, gritava a mulher

Zuleide correu desesperada até a registradora. Ofegante, sorriu tensa para a moça do caixa que parou de fazer as unhas dos seus dedos (dois mindinhos e dois indicadores no total) e olhou desconfiada para Zuleide. Zu disse a ela, sacudindo o boleto:

--Consumi quinhentos e trinta e dois gramas e setecentos “ml” de mercúrio cromo.

Nesse ínterim, surge uma garçonete, eficientemente, eficazmente, trocando o copo de mertiolate vazio, por um cheio. Zuleide agradece frustrada. A garçonete gesticula positivamente mostrando o dedão, mas não diz nada. A caixa, observando, indaga inquisidora:

--Mercúrio, você disse?

--Oh, não! Perdão! Hehehe. É...é...é mer, mer... Mertiolate! Tudo a mesma mer!... Hehehe...

--Não, senhorita. Mertiolate não é mercúrio. – afirma seriamente. – São mercadorias diferentes.

--Mas o preço é o mermo.

--Cale-se!

A caixa bateu cuidadosamente com os dedos de unhas esmaltadas na registradora e...RASG!

--Pode pagar ali, naquela sala, número 3-B.

--Poxa, eu tenho S$5...

--Cinco surreais?! Você roubou o seu patrão?

--Não! Eu o tinha guardado há muito tempo. Quase de lembrança.

--Deixe-me ver a nota – diz a caixa inclinando-se sobre a registradora. Zuleide mostra a nota furtivamente.

--A nota me parece nova! Você roubou!

--É que eu nunca usei e ela não circulou. Ficou novinha e intacta.

--Me deixe analisá-la, então! Quero ver a data! Quem não deve não teme.

--Vai me fazer a conta por S$5, então?

--Não. – diz a caixa retrocedendo. Ninguém com notas ou mesmo moedas come aqui. Como vou explicar isso ao meu chefe? E mesmo que ficasse só entre nós, quem iria aceitar notas de um mutilado?

--Os árabes pelo menos se mutilam por motivos mais drásticos! Merda!

--Sala 3-B. – diz a caixa voltando ao seu ar entediado. – Próximo!

Zuleide dirigiu-se trêmula para a sala 3-B. Ao abrir a porta deparou-se com três homens musculosos, altos, fortes, íntegros e de cabeças raspadas. Todos vestidos com camisas pólo de estampas trilíngües nas costas: "Il Sapore della Vita" – ristorante – self service – comida a quilo". Os três espancam a correntadas, porretadas e toalha molhada um homem extremamente obeso e rosa, mas já quase vermelho. Dois rapazes, também uniformizados, íntegros e de aspecto semelhante ao dos outros três, cumprimentam Zuleide:

--Boa tarde, dona. Quanto deu?

--Trinta e cinco – murmura, Zuleide.

--Uuuu!...

Um dos rapazes, já irritado com a gritaria do gordo cor de vinho, entrega uma lista à Zuleide:

--As condições de pagamento, dona.

Zuleide pega. Lê indecisa a lista. O mesmo rapaz pede pressa em tom ainda educado:

--Olha, dona, tem muito cliente aqui hoje. Não demore muito, por favor.

Zuleide faz que sim com a cabeça e passa o dedo indicador, trêmulo, de cima abaixo na lista. Seus olhos, no entanto, não acompanhavam o dedo.

Uma gota de suór pinga da testa e se espatifa nas condições de pagamento.

--Pooorra! – reclama abrindo os braços um dos rapazes.

--Desculpe – balbucia, Zuleide.

--Se adianta aí, moça. – disse o outro rapaz com um fósforo entre os dentes, aparentemante mais habituado ou conformado com a profissão que não era fácil, mas era, ao menos, uma das raras ocupações remuneradas.

--Tá. E... E... E-e se eu escolher abuso sexual? Sou eu quem escolhe o estilo?

Os olhos dos dois rapazes percorrem Zuleide de cima a baixo e por toda parte. Ela novamente ruboriza. Os dois se entreolham pálidos. Ambos sorriem simpáticos para ela e um deles diz:

--Aí, dona. Escolhe outra parada aí, que a gente alivia pra você.

--É! – aconselha o outro – Por que você não escolhe espancamento? A gente te divide em duas partes. Uma metade pra agora e a outra metade pra daqui a um mês.

--Hum... Não sei. E a navalhada? Quantas são?

--Não é por navalhadas, mas por profundidade de corte. A navalhada é sempre uma. – esclarece o menos impaciente.

--E vai ficar muito profunda? – preocupa-se Zuleide.

--Não, dona! A gente já não te disse que vai dar uma aliviada pro teu lado? – diz o mais impaciente.

--E eu vou precisar ir ao médico?

--Médico pra quê, dona? Pra trocar um ferimento por outro muito maior?

--Ai, meu Deus!

--Vai com fé, dona.

--Tá. Vou pagar dessa forma: uma navalhada.

--Pode ser na barriga? – pergunta o outro rapaz sacando do bolso o instrumento de cobrança.

--Na barriga não! Acabei de comer. No bumbum, por favor.

--Sem problemas, dona. – diz o rapaz iniciando a cobrança:

RASG!


Alejandro Augusto Sainz de Vicuña Etc.

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