Casa de Família
"Dliiim-dloooum" tocou a campainha melifluamente. Iguana não via os primos e os tios há pelo menos uns sete anos. Sumiu mais ou menos na época que se tornou straight edge, vegan, e quando começou a se tatuar. Da última vez que viu os primos, sua pele ainda era virgem e imaculada. Antes desse sumiço, passava todas as férias nessa casa na qual estava prestes a entrar. Longas férias. Chegava a pensar que morava ali. Foram bons momentos. Lembra-se bem do seu tio Carlos levando ele e os primos pra passear de carro, ir ao Parque Municipal, andar a cavalo, ir nos brinquedos, tomar sorvete ou comer melancia... Mas as coisas mudaram bastante. Agora, lá estava ele e a mãe. Seu coração batia tão forte que a asa direita da águia do Path of Resistance, sua terceira tatuagem em ordem cronológica, parecia bater também. Realmente não queria estar ali. E a porta se abre:
-PUTA QUE ME PARIU!
-Oooi, Carlos! - disse a mãe de Iguana. - Quanto tempo, hem?
-Regina, quem é esse? Seu amante?!
-É o Leozinho, Carlos! - disse ela rindo bobamente, ainda do lado de fora. Carlos era um cara enorme para todos os lados. Alto e gordo, calvo, um bigode exagerado, respiração sempre arfante e uma cara sempre séria e mal-humorada, apesar do seu constante senso de humor e piadas doentias. A última coisa que Carlos seria na vida é uma pessoa séria.
-Vai nos deixar aqui do lado de fora? - disse Regina.
-Você não, que é um doce. Pena que na época eu não percebi que você dava mole pra mim e me casei com a tarada da sua irmã. Agora, esse cara aí, eu não sei. Mó pinta de vagabundo...
Regina riu e foi entrando, cumprimentando, abraçando, beijando, elogiando, se admirando com as crianças, etc...
Iguana, ou melhor, Leozinho (pois Iguana era só na cena), foi entrando logo depois da mãe, mas o tio Carlos colocou a sua enorme barriga na frente e o bloqueou:
-Onde pensa que vai, cara? Isso aqui é casa de família.
-Não enche, tio. Me deixa entrar.
O tio Carlos encarou Leozinho com seu olhar de peixe morto.
-Agora é só eu e você!
"It's me or you and something is gotta give!", pensou Iguana. E ainda: "...No time for simpathy, moment of truth is here. I don't care what you think of me, it's not revenge I seek, it's you and me. Right now! You and Me! Right Now! Just you and me!"
-E essas suíças de viado? Regina! - gritou Carlos pra dentro da casa, ainda bloqueando Leozinho no corredor, que morria de vergonha de um vizinho que escutava tudo esperando o elevador. - Como você namora um cara com essas suíças de homossexual?
-Pára de encher ele, Carlos. - disse Regina já sentada no sofá da sala.
-Fecha a porta, Carlos. Tá entrando a maior corrente de ar. Pára de palhaçada. Quero ver o Leozinho. - disse Ângela, a esposa de Carlos.
-Mesmo com essas suíças de viado?!
-Suíças? - perguntou Iguana.
-Suíças, costeletas, viadagem... Vai entrando, ô cara. Mas tô de olho em você!
Carlos pegou Iguana pela cabeça e o atirou para o meio da sala, onde ele tropeçou em um bebê e caiu. Levantou-se rapidamente. A criança chorou. Carlos fechou a porta lentamente, como tudo que faz, e, foi arrastando os chinelos pro meio do povaréu.
-Leoooziiinhooo!!! - disse a tia Ângela após alguns segundos de estupefação muda.
Não havia mais lugar pra se sentar na sala. Todas as suas tias, avós, tias-avós e tios-avôs, primos, sobrinhos desconhecidos, etc dominavam o lugar. E havia um trânsito congestionado de bebês e crianças pelo tapete. O clima era tenso e cheirava a coxinha de galinha, pão de queijo e guaraná.
Iguana sentiu um calor na retaguarda. Era o tio Carlos, parado logo atrás dele, comendo coxinha, arfando e lendo as suas tatuagens.
-Que porra é "bortuluse, live tuím"?
-Me deixa, gordo!
-Regina! Esse cara tem uma mulher pelada no braço! Até vejo os mamilos dela! - disse Carlos.
-É uma pin up - disse Regina. Não lembra? Isso é do seu tempo! - e riu em seguida.
-Pois é. Mas só em poster e calendários. Eu tocava punheta pra elas. Muita punheta, é bom dizer!
-Aiii, Carlos. Que horror. - disse Ângela. - Olha a tia Oswaldina aqui! Sabe que ela não gosta disso.
-Velho maluco! - disse uma das tias-avós. Tia Oswaldina, felizmente, era quase surda.
-Puta merda! - disse Carlos rindo e cuspindo fiapos de galinha. - Tooodo rabiscado! Por que você tatuou uma mulher pelada no seu braço, cara? Quer que homens se excitem ao olhar pra você? Tem mais mulher pelada por aí? Quero ver! Me deixa ver!
-Só tem essa, graças a Deus. - disse Regina, simpática como sempre.
-Uma mulher pelada, um peixe, uma bola de sinuca, incêndios, um cadillac, uma caveira com um parafuso na cabeça... Tira a camisa, tira a roupa, cara, deixa eu ver o que tem mais aí...
-Tira a mão, gordo! Me solta, me deixa! Sai! Chispa!
-Deixa o menino, Carlos! - disse uma tia bonachona chamada Antônia. - É coisa da adolescência!
-É, Tonhona? - Carlos sempre tinha um apelido especial e desagradável para cada parente, que ele nunca esquecia e que só ele usava. - Por isso esse mundo é um manicômio. Adolescentes demais. Crianças adolescentes, bebês adolescentes, velhos tarados adolescentes, todo mundo é adolescente nessa porra! Mate um adolescente e faça o meu dia feliz!
-Seus filhos são adolescentes! - disse Tonhona.
-Mas eu ponho eles na linha! Eles são adolescentes adultos.
A esposa gargalhou e ironizou:
-Põe sim, Carlos! Eu sei que põe.
-Pelo menos eles não estão rabiscados. E olha! Rabiscado e tooodo furado. Olha isso, que indignidade! Dois rombos na orelha! É um degenerado!
-São plugs, Carlos. - disse Regina, querendo se mostrar uma mãe interada e moderna.
-Plugs?! Deixa eu ligar o microfone do videokê na sua orelha então, cara! Vamos cantar!
A anfitriã, tia Ângela, chamou todos pra mesa:
-Venham, antes que o Carlos coma tudo.
-Nada mais justo! Afinal, eu paguei por tudo isso.
A multidão se desloca. Iguana fica parado no mesmo lugar. Começa a se sentir enjoado.
-Aaah, gente! - disse Regina, mãe de Iguana - Vocês não sabem da maior. Leozinho é vegan.
-Vi o quê? - perguntou Carlos.
-É vegetariano. Mas é mais complicado.
-Ah é?! Complicado? Eu descomplico... - disse tio Carlos. E dando tapinhas na cadeira, a única restante, ao seu lado, chamou por Leozinho: - Vem cá, vem! Vem comer um peixinho frito com o titio.
Iguana, rápido como um réptil, correu para a porta. Tentou abri-la e escutou o tio Carlos dizer:
-Eu pego ele...
Iguana ia testando chave por chave e o barulho arrastado do chinelo do tio Carlos ia se aproximando. Uma, duas, três, quatro chaves, o desespero aumentava, o suor escorria e nada... Iguana, ateu convicto, murmurava tenso para si: "Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!..."
Tio Carlos apareceu do outro lado da sala. Caminhava de forma pesada e tranqüila. Era uma tortura mental. Cinco, seis, sete chaves, e Carlos chegou no corredor de entrada e parou. Três passos de distância. Oito, nove, décima chave e serviu! Serviu, porra! Iguana girou a maçaneta e... não abriu.
-Falta essa papaiz do trinco aqui. - disse Tio Carlos, balançando vitoriosamente a chave no ar diante dos olhos apavorados de Iguana. Em seguida, sua mãozorra foi pegar o prêmio.
-AAAAAAAAAAAAAAh!!! AAAAAAAAAAAAAAAh!!! NÃÃAAAAAAAAAAAooo!!! AAAAAh!!! - gritou Iguana.
-Meu Deus! O que é isso?!
-Meu filho!
-Carlos esfolou o menino!
-É um estupro!
-Eu te avisei, Ângela! Sempre te avisei! - disse tia Oswaldina que ouviu claramente os gritos.
Os familiares correram para acudir Leozinho. Se amontoaram no vão da porta, mas Regina foi a única que conseguiu se aproximar do filho histérico.
-Quero sair! Me deixa sair! - gritava Iguana.
-O que você fez com ele, Carlos? - perguntou a sogra. E Carlos, sem graça e assustado, respondeu:
-Nada! Só vim buscá-lo para almoçar, caralho.
Iguana mostrava-se inconsolável e irredutível. Carlos entregou a papaiz à Regina, que abriu a porta para o filho. Iguana nem esperou o elevador, desceu as escadas correndo.
-Gente!... - disse Regina admirada. - Eu vou atrás, né? Me dá minha bolsa aí, Ângela. Desculpa, né gente? Se der eu volto.
Regina saiu, diante do espanto familiar.
-Viciado! - esbravejou Carlos, com o consentimento silencioso de todos. - É coisa de adolescente! - disse remendando ridiculamente a voz de Tonhona. - Eu vou te mostrar o que é coisa de adolescente!
Alejandro Sainz de Vicuña Etc.

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