Thursday, September 15, 2005

Sacrossanta Brancura

Adaílton era porteiro de um prédio classe média alta na Rua Prudente de Moraes, em Ipanema. Paraibano, tinha já passado a casa dos trinta. Não era flor que se cheire para os homens, mas flor olorosa para as moças que apreciavam o seu perfume, um forte odor de macho. Exalava tanta hombridade pelos poros que chegava a feder.

Adaílton era um malandro. Veja bem, um malandro, e não um canalha. Um boa vida que se endireitou e passou a trabalhar arduamente. Nada braçal. Árduo era o tédio. Tinha insônia e virava noites em claro naquela portaria marmórea, fria, diante dos monitores. Vigiava, vigiava e vigiava. Horas vigiando nada em preto e branco. Chegava a torcer para que houvesse um assalto, um tumulto, briga entre vizinhos, qualquer coisa em que pudesse se meter, mas só vigiava em preto e branco.

Às vezes, se enganava, fingindo ver alguém, apenas para dar uma volta na garagem ou andar de elevador. Gostava de fazer pequenos serviços domésticos: desentupir ralos, pias, instalar chuveiros elétricos, essas coisas. Sempre lhe pagavam muito bem, fora a hospitalidade, o dedo de prosa, o cafezinho, os biscoitinhos e até as refeições completas em cozinhas amplas, moduladas, inteligentes e muito agradáveis. Geralmente, eram coisas extremamente simples que se resolviam num único acerto, só que com a devida dramatização...

Só que essa vidinha guardava uma grande inquietação. Adaílton apavorava nos forrós, tinha todas que queria e até umas mocinhas de família. Mas as mulheres que passavam pela sua frente, no hall, deslumbrantes, perfumadas, deslumbrantes mesmo quando informais, mesmo de calça jeans e moletom, essas, essas não tinha, nem teria nunca. Seus cabelos lisos, bem lisos, suas peles brancas, bem brancas, suas roupas, seus ares, suas vozes, seus sotaques... Admirava todas. Ninfetas e coroas. Até algumas menininhas que já despontavam algumas protuberâncias. Nunca faria nada a uma criança! Adorava crianças. O fato é que quase todas as moradoras o excitavam de uma forma que parecia transcender a carne. E nunca as teria! Nunca... Toda aquela gentileza, todo aquele afeto bem delimitado, que antes fosse desdém, lhe atiçava ainda mais os secretos anseios.

Adaílton era muito cordial, mas sua reverência não atingia o excesso. Era malandro o suficiente para ocultar a própria malandragem. Todos o viam como um trabalhador exemplar, educado e que, diferente dos outros, não dormia em serviço. A sua inquietação lhe forjava uma virtude.

A verdade é que julgava-se inferior. Não era só dinheiro. E se tivesse dinheiro? Não seria como eles. Não criaria filhos como eles. Seu corpo não é como o deles. A sua beleza tem algo de bruta e ridícula. Um paraíba, como lhe chamam, às vezes. Já neles, até o feio, o velho ou o degenerado é digno, sofisticado, elegante e, por que não, belo? Ah! Podem falar em igualdade, mas não somos iguais. Somos piores. Nossos ares são piores. Eles mesmos, diante de nós, nos tratam com benevolência, mas sabendo que são superiores, mesmo que neguem, mesmo que preguem a igualdade. Somos diferentes, inferiores e eles nos aceitam quando poderiam nos escorraçar.

Certo dia, apareceu uma nova moradora e as atenções de Adaílton se foram voltando para ela. Ava, o seu nome, encarnou todo o seu desejo e veneração para com aquela gente. Ava, sem saber, ia se tornando tudo, mas tudo, na vida daquele homem.

Era uma jovem de dezoito anos, dinamarquesa, com um sotaque e andar abestalhado, simpaticíssima e o mais importante: linda, branca, muito branca, cabelos loiros e lisos e olhos azuis azuis. Era filha de uma brasileira descendente de alemães com um dinamarquês. Sempre vinha passar férias na casa da avó materna e já falava bem o português. E muito aprendeu com o Adaílton! Não era raro ela parar nas saídas e chegadas de seus passeios junto à mesa dele e conversar. Certa vez, até deixou o taxista esperando lá fora durante quinze minutos. O homem entrou nervoso, impaciente com a demora. Ava se irritou e mandou ele sair e esperar lá fora. O taxímetro não está rodando? Então espere o tempo que for! Ou vá embora se quiser! O taxista esperou. Adaílton não cabia em si. E pra aumentar o seu orgulho, Ava, quem sabe de pirraça, quem sabe pela prosa, quem sabe?, deixou o taxi lá fora por mais meia hora. Meia hora! Sim! Quase uma hora de taxímetro rodando! Só pra ficar de papo na portaria com ele. Sua mulher não pagaria nem um centavo por um “bom dia” dele, muito menos acreditaria nessa história. Pagar pra ouvir o Adaílton?! Só louco que rasga dinheiro. Ah, sim! Adaílton era casado com uma mulata, mais pra negra que pra branca, e tinha três filhos. Quer dizer, mais pra branca ou mais pra negra dependendo da situação. Malandragem dele...

Mas com Ava era assim... Ela perdia elevadores, impacientava taxistas, saía atrasada e até perdia programas por conta disso. E era só conversa mesmo! Dessas que se jogam fora, coisa à toa, besteira. Dados os detalhes dos nossos dois personagens, talvez um ou outro desnecessários, vamos ao ponto:

Ela tinha um encontro. Homem. Tinha pressa. Chamou pelo porteiro:

--Adaílton? Adaíííltooon?

Queria ajuda com o carro alugado. Achou o barulho do motor estranho. E dessa vez não tinha tempo pra ele. Precisava sair mesmo. Já estava atrasada quando desceu.

O pedaço de cano estalou com brutalidade contra o crânio de Ava que caiu inerte. Adaílton a levou para o depósito das lixeiras. Ela estava linda. O veludo junto à pele e as formas curvilíneas... O sangue entre os cabelos loiros, escorrendo, contrastando com a alvura da pele... Linda! Parecia ter encravada uma coroa de espinhos.

Tudo o excitava. A pulseira rodeando seu pulso delicado cravejada de um pequeno brilhante; o cordão de ouro no pescoço fino e longo... Sentiu vontade de beijar-lhe a mão, mas teve vergonha. Nunca a beijara. Nunca a tocara a não ser para levá-la até ali, onde jazia agora. Ajoelhou-se ao lado do corpo desacordado. Segurou a sua mão e a beijou, delicadamente. Invadiu-lhe uma grande ternura. Beijou duas vezes, três vezes, quatro vezes, muitas vezes e, já sôfrego, quando deu por si, mordia-lhe a mão branca, fina, feminina, esmaltada, ornada. Mordia a carne e sentia, na força dos dentes, na maciez da pele, uma enorme excitação. Cheirou os cabelos, lambeu-os, pô-los na boca, mordeu-os; agarrou-a, ousado, dono da situação, dono dela, como macho, marido, já consciente e mergulhante na loucura; agarrou-a em seus braços e beijou-a com violência. Tentava beber sua saliva, sorvia sua boca, mordia seus lábios. Ava transformou-se no banquete de um glutão. E essa imagem, essa fúria, era assombrosamente literal. Adaílton desejava comê-la, mastigá-la entre os seus dentes, consumi-la, tê-la dentro de si, fazer dela ele, exauri-la nele, sumi-la nele. Mas apenas se desesperou com essa idéia. Sentia-se incapaz de devorá-la. Se tivesse uma faca! Por que não pegou uma faca antes? Mas foi tão de repente... Se tivesse garras! Presas! Queria ser um tigre. Daria tudo para ser um tigre.

E o que fazer agora? Tinha-a ali, diante de si, o objeto do seu mais profundo e obsessivo desejo. Seus dentes rangiam, trincavam de excitação e dúvida. Queria profaná-la da forma mais grotesca possível. Era um anjo. Um anjo, que ao menos naquele momento, era seu e só seu. Um anjo cujo destino estava por ele selado.

Atirou-a de bruços sobre os sacos de lixo. Suas pernas lustrosas ficaram dependuradas. Ergueu a saia do anjo e abaixou sua calcinha. Observou seu traseiro branco, seu cu roxo exposto e indefeso. O anjo gemeu. Um gemido fraco, muito fraco, mas que invadiu-o de horror. É humana! Humana!

Mas aquele corpo exposto era obsceno e fazia seus olhos brilharem. Adaílton saltava, ia e voltava, por sobre o abismo da sua humanidade. Da carne ao céu, da coisa ao anjo. Só não podia lidar com Ava, com aquela moça cordial, simpática e bondosa que passava e conversava com ele na portaria. Só anjo ou coisa.

Ava gemeu mais forte. Céus! — disse entre um estremecimento inútil. Seu abismo era ainda mais profundo. Ela ainda sentia. Tinha vida, quem sabe consciência. Adaílton estava determinado a mergulhar nessa escuridão junto com o seu anjo indefeso. Queria unir-se violentamente ao seu anjo, trespassá-lo, transcender sua condição pelos atos mais grotescos, transcender descendendo. Ser branco, imensamente, supremamente branco. Pensou em Deus. Branco. Alvo e Supremo. Pensou em Deus, mas não como juiz. Pensou em Deus como testemunha do que faria ali. E também pensou em Deus como Voyeur.

Arrancou seu pau de dentro das calças e forcejou contra Ava. Ela gemia semiconsciente. Sentia a dor. Adaílton estocava sua fêmea branca e murcha que apesar da violência sofrida ia despertando aos poucos. Gemia entorpecida. O cérebro formigava. Adaílton seguia cada vez mais bruto, cada vez mais impiedoso. Saiu de dentro dela. Seu falo estava ungido de fezes e sangue. Os olhos de Ava se abriram pela primeira vez. E despertou no inferno. Adaílton recomeçou o martírio. Agora, pela vulva. Ava sentiu-se preenchida e tomou consciência da violência que sofria sem que ainda, de costas, tivesse identificado o seu algoz.

O homem forcejava, mas encontrava dura resistência. Rompeu-a. Seu anjo era puro e inocente. Sangrava, chorava e gritava sem energia. Por fim, calou-se de tão cansada. Gemia como ser inanimado que range.

Finalmente, Adaílton parou ofegante. Atirou seu corpo sobre o dela e relaxou. Prolongava o seu prazer, dono da situação. Chegou a fechar os olhos. E pela primeira vez sentiu sono em plena madrugada. Encaixava-se dentro de Ava e ia adormecendo com o perfume da sua pele que competia com o odor do lixo, quando ela pediu...

--Me deixa. Estou fértil. Eu te imploro. Já teve o que quis. Agora me deixa. Estou fértil, ouviu? Fértil... Não faça uma desgraça maior!

E aquelas súplicas tiraram Adaílton de seu prazeroso torpor. Aquelas palavras estremecidas iluminaram seu espírito como um relâmpago. Viu ali a sua salvação, sua redenção e foi com mais fúria do que antes que reacordou e recomeçou o martírio de Ava. Buscou desesperadamente naquelas entranhas umedecidas pelo sangue a vida e a união com o divino.

Gozou. Gozou como nunca gozara antes. Um êxtase místico. Inundou-a e atirou-se de lado, ao chão. Caiu inerte com um sorriso no rosto. Ela não morreria mais, e ele já podia morrer. Morrer com a possibilidade de estar salvo, de ter alcançado tudo aquilo que sempre lhe foi puro, cândido, virtuoso, belo e distante. Adormeceu assim, pleno.

Um dia, Ava, quase no dia do parto, foi visitá-lo na prisão. Conversaram secamente.

--Por que fez aquilo?

--Ciúmes.

--Jura?

--Juro. – disse tentando convencer a si mesmo.

Ava se convenceu. Pareceu sorrir ligeiramente. Ou, talvez, eu seja um pervertido e veja coisas. Mas só digo que pareceu.

--E havia outro jeito?

Silêncio.

--Não. Nem haverá. Você me violentou. Você foi o meu martírio, a minha provação.

--Venha me visitar. Traga o nosso filho!

--O MEU filho!

--Seu filho...

--E do Espírito Santo.

--E do Espírito Santo. Amém.

Ava acaricia o ventre.

--Vem me visitar!

--Não. Eu lhe escrevo. E só. Apenas me leia. Nem tente me responder. Me esqueça na terra.

--Cartas de amor, é?

--Quem sabe?

--Só Deus.

--Vai depender de você.

--Como se não vou te ver nem te escrever?

--Isso se sente. Cultua-me. Ajoelhe-se e reze pra mim. Todo santo dia!

--E você? Será fiel?

--Sim, porque sou pura. E você? Será fiel?

--Serei! Todo santo dia!

--Então jura.

--Juro por Deus que serei fiel a você.

--Então que Deus te perdoe. Adeus!

Ava se vai. E antes que saia escuta os gritos de Adaílton:

--Eu sabia que era um anjo! Santa! Você é santa! SANTA!!! Branca como santa!

--Tá bom, Adaílton... – diz o agente penitenciário – ...e você é pardo. Pardo, negro, índio, nordestino, tanto faz... Vamos lá. Tá na hora de voltar pra junto da sua gente, pro seu lar doce lar. FIM

--Silêncio! – grita o agente penitenciário.

Adaílton é arrastado para o pavilhão dos estupradores e atirado em sua cela coletiva.

--Era ela!

--A Santa? – diz um companheiro de cela.

--Sim! A Santa! Branca e Pura como sempre!

--Que vadia! Nenhuma vadia que eu estrupei veio me visitar.

--Vadia não! Santa, seu pardo! SANTA!

--Irmão... Tu é o cara mais tarado que eu já vi. Eu estrupo as vadia. Tu estrupa as santa!

Os outros riem.

--Amor! Estupro, não! Amor!

--Coé, mermão. Então nóis aqui estrupa as vadia e tu ama as santa?

Todos gargalham.

--Eu AMO! – grita com fúria.

--Ah, Daíltu... Tu é loco, cara.

Um velho, quase branco, se levanta do seu canto escuro e diz a Adaílton:

--Santo ninguém é. Nem santa. Nem minha neta era. Era inocente, mas pura não. Olha onde estamos... num inferno de concreto onde só tem negros e pardos... Assim como você, Adaílton. E nem nesse inferno somos aceitos, e com razão. Pele branca aqui, Adaílton, só aquela ali, nua, no pôster. E nós? Somos ruins demais até pra ficar com os outros delinqüentes.

--Não sou delinqüente!

--É! É estuprador! Aceite isso! E pare de chamar a Daniele Winits de Ava, de Santa, e de falar de Deus com ela! Ela é puta! Vadia! E você, estuprador. Assim é o mundo, assim é a vida e você precisa aprender!

--Não! Nunca! Vocês nunca sentirão o que eu senti. Vocês não sabem o que é ir além e quase tocar a pele de Deus. Eu vi a cor da pele de Deus!

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