Tuesday, October 26, 2004

Fast forward sem reward

É uma pena estar sem tempo e tranqüilidade pra continuar a escrever meus últimos projetos. E por falar em tempo passando rápido, aí vai mais coisa antiga.


Fast forward sem reward

Começou assim:

-My name is Lucifer. Please, take my hand!

-Ei! Isso é Black Sabbath, não?

-Exatamente. - disse o homem com a mão estendida. Ele tinha dois piercings subcutâneos simulando um par de chifres e estava queimado de praia. Sua pele era uniformemente vermelha, tinha bigode e cavanhaque pontiagudo. Trajava terno negro riscado. Definitivamente estranho. Ridículo, talvez.

Eu apertei a mão daquele sujeito e perguntei:

-Qual é o seu nome?

-Lúcifer, ora.

Eu ri sem vontade. Estava mal humorado e entediado; insatisfeito com a vida mesmo. Mas mesmo assim brinquei de volta:

-Ok. Então, Sr. Lúcifer, me dê um controle remoto pra minha vida. Só precisa de três teclas: "play", "fast forward" e "off". E eu te dou a minha alma em troca. Minha prostituída, roubada, violentada e vendida alma.

Achei que com essas palavras pesadas ele me deixaria, mas não entendi porque ele ficou tão entusiasmado com elas.

-Vou patentear a sua idéia! - disse. E tirou um controle remoto do bolso interno do paletó. Eu ri sem vontade de novo. Era o celular, claro. Mas qual não foi o meu espanto ao ver somente as três mencionadas teclas "play", "fast forward" e "off", no controle que ele passou às minhas mãos? Gelei! Fora isso, tinha um pequeno relógio digital acoplado.

-Negócio fechado? - ele indagou.

-Fechado e sem volta ou devolução! - consenti, apertando, quase instantaneamente, o "fast forward" para passar logo por cima daquela noite insuportável. E o apertei várias vezes desde então.

Virei adulto, amadureci, mas não me casei com ela, não ascendi na empresa (fui até demitido), o fluminense indo e voltando da terceira divisão, minha mãe morreu, ah... Tanta coisa... Fui vendendo tudo que herdei. É verdade que sempre me virei e sobrevivi. Sempre indignamente. Fiquei até bem numa época. Vendia persianas, negócio próprio. Montei uma firma e estava sempre de saco cheio. No dia em que pedi concordata gritei pelo diabo. Queria trocar o meu controle por outro com apenas uma tecla: "stand by". Ele não apareceu, claro. Devia saber que sem "play" não há "off" e sem "off" minha alma não seria dele.

O fato é que isso aconteceu há apenas 6 horas atrás, segundo o relógio digital do controle e ainda não achei nada muito divertido pra fazer. Quer dizer, eu procurava diversão, depois eu procurei o que procurar, depois, felicidade, depois, estabilidade, e agora já cheguei aos 77 anos e... Pfff. E pensar que 6 horas atrás eu tinha apenas 17. Foi tudo muito rápido. Uma velocidade suicida. Não preciso ver os créditos finais, sem epitáfio. OFF.



Tuesday, October 05, 2004

A Hello Kitty tá aparecendo em tudo que é lugar. Só falta posar pra Playboy. Mas dizem que ela acha que não tem a ver com ela, que não tem nada contra, mas que, pelo menos por agora não quer, que ainda não é o momento e se um dia tiver vontade fará. Dizem também que isso é tudo conversa fiada, que ela só sabe aparecer vestida em camiseta com cara de brechó do Alexandre Herchcovitch que custa R$180, mas que foge da raia quando o lance é posar nua porque na verdade não tem peito e nem bunda. Boatos a parte, a Hello Kitty foi substituída a altura por Mari Alexandre.

Monday, October 04, 2004

Vote 29

Sempre votei nulo, mas nessas últimas duas eleições, não sei bem o porquê, votei na Thelma Maria do PCO. Me deu vontade de fazer isso desde que eu a vi discursando com aquela blusa preta de lã com gola rolê, parecendo uma existencialista nos anos 50. 50, acho. Nessas eleições ela apareceu menos graciosa, mas ainda gostei do jeito manso e seguro do discurso militante de esquerda partidária dela. Ela não é tosca como partidos que cunham bordões como "quem bate cartão, não vota em patrão" ou "contra o burguês, vote 16". Mas é isso: minha fidelidade partidária de eleitor só existe por causa daquela gola rolê.