Thursday, September 15, 2005

Sacrossanta Brancura

Adaílton era porteiro de um prédio classe média alta na Rua Prudente de Moraes, em Ipanema. Paraibano, tinha já passado a casa dos trinta. Não era flor que se cheire para os homens, mas flor olorosa para as moças que apreciavam o seu perfume, um forte odor de macho. Exalava tanta hombridade pelos poros que chegava a feder.

Adaílton era um malandro. Veja bem, um malandro, e não um canalha. Um boa vida que se endireitou e passou a trabalhar arduamente. Nada braçal. Árduo era o tédio. Tinha insônia e virava noites em claro naquela portaria marmórea, fria, diante dos monitores. Vigiava, vigiava e vigiava. Horas vigiando nada em preto e branco. Chegava a torcer para que houvesse um assalto, um tumulto, briga entre vizinhos, qualquer coisa em que pudesse se meter, mas só vigiava em preto e branco.

Às vezes, se enganava, fingindo ver alguém, apenas para dar uma volta na garagem ou andar de elevador. Gostava de fazer pequenos serviços domésticos: desentupir ralos, pias, instalar chuveiros elétricos, essas coisas. Sempre lhe pagavam muito bem, fora a hospitalidade, o dedo de prosa, o cafezinho, os biscoitinhos e até as refeições completas em cozinhas amplas, moduladas, inteligentes e muito agradáveis. Geralmente, eram coisas extremamente simples que se resolviam num único acerto, só que com a devida dramatização...

Só que essa vidinha guardava uma grande inquietação. Adaílton apavorava nos forrós, tinha todas que queria e até umas mocinhas de família. Mas as mulheres que passavam pela sua frente, no hall, deslumbrantes, perfumadas, deslumbrantes mesmo quando informais, mesmo de calça jeans e moletom, essas, essas não tinha, nem teria nunca. Seus cabelos lisos, bem lisos, suas peles brancas, bem brancas, suas roupas, seus ares, suas vozes, seus sotaques... Admirava todas. Ninfetas e coroas. Até algumas menininhas que já despontavam algumas protuberâncias. Nunca faria nada a uma criança! Adorava crianças. O fato é que quase todas as moradoras o excitavam de uma forma que parecia transcender a carne. E nunca as teria! Nunca... Toda aquela gentileza, todo aquele afeto bem delimitado, que antes fosse desdém, lhe atiçava ainda mais os secretos anseios.

Adaílton era muito cordial, mas sua reverência não atingia o excesso. Era malandro o suficiente para ocultar a própria malandragem. Todos o viam como um trabalhador exemplar, educado e que, diferente dos outros, não dormia em serviço. A sua inquietação lhe forjava uma virtude.

A verdade é que julgava-se inferior. Não era só dinheiro. E se tivesse dinheiro? Não seria como eles. Não criaria filhos como eles. Seu corpo não é como o deles. A sua beleza tem algo de bruta e ridícula. Um paraíba, como lhe chamam, às vezes. Já neles, até o feio, o velho ou o degenerado é digno, sofisticado, elegante e, por que não, belo? Ah! Podem falar em igualdade, mas não somos iguais. Somos piores. Nossos ares são piores. Eles mesmos, diante de nós, nos tratam com benevolência, mas sabendo que são superiores, mesmo que neguem, mesmo que preguem a igualdade. Somos diferentes, inferiores e eles nos aceitam quando poderiam nos escorraçar.

Certo dia, apareceu uma nova moradora e as atenções de Adaílton se foram voltando para ela. Ava, o seu nome, encarnou todo o seu desejo e veneração para com aquela gente. Ava, sem saber, ia se tornando tudo, mas tudo, na vida daquele homem.

Era uma jovem de dezoito anos, dinamarquesa, com um sotaque e andar abestalhado, simpaticíssima e o mais importante: linda, branca, muito branca, cabelos loiros e lisos e olhos azuis azuis. Era filha de uma brasileira descendente de alemães com um dinamarquês. Sempre vinha passar férias na casa da avó materna e já falava bem o português. E muito aprendeu com o Adaílton! Não era raro ela parar nas saídas e chegadas de seus passeios junto à mesa dele e conversar. Certa vez, até deixou o taxista esperando lá fora durante quinze minutos. O homem entrou nervoso, impaciente com a demora. Ava se irritou e mandou ele sair e esperar lá fora. O taxímetro não está rodando? Então espere o tempo que for! Ou vá embora se quiser! O taxista esperou. Adaílton não cabia em si. E pra aumentar o seu orgulho, Ava, quem sabe de pirraça, quem sabe pela prosa, quem sabe?, deixou o taxi lá fora por mais meia hora. Meia hora! Sim! Quase uma hora de taxímetro rodando! Só pra ficar de papo na portaria com ele. Sua mulher não pagaria nem um centavo por um “bom dia” dele, muito menos acreditaria nessa história. Pagar pra ouvir o Adaílton?! Só louco que rasga dinheiro. Ah, sim! Adaílton era casado com uma mulata, mais pra negra que pra branca, e tinha três filhos. Quer dizer, mais pra branca ou mais pra negra dependendo da situação. Malandragem dele...

Mas com Ava era assim... Ela perdia elevadores, impacientava taxistas, saía atrasada e até perdia programas por conta disso. E era só conversa mesmo! Dessas que se jogam fora, coisa à toa, besteira. Dados os detalhes dos nossos dois personagens, talvez um ou outro desnecessários, vamos ao ponto:

Ela tinha um encontro. Homem. Tinha pressa. Chamou pelo porteiro:

--Adaílton? Adaíííltooon?

Queria ajuda com o carro alugado. Achou o barulho do motor estranho. E dessa vez não tinha tempo pra ele. Precisava sair mesmo. Já estava atrasada quando desceu.

O pedaço de cano estalou com brutalidade contra o crânio de Ava que caiu inerte. Adaílton a levou para o depósito das lixeiras. Ela estava linda. O veludo junto à pele e as formas curvilíneas... O sangue entre os cabelos loiros, escorrendo, contrastando com a alvura da pele... Linda! Parecia ter encravada uma coroa de espinhos.

Tudo o excitava. A pulseira rodeando seu pulso delicado cravejada de um pequeno brilhante; o cordão de ouro no pescoço fino e longo... Sentiu vontade de beijar-lhe a mão, mas teve vergonha. Nunca a beijara. Nunca a tocara a não ser para levá-la até ali, onde jazia agora. Ajoelhou-se ao lado do corpo desacordado. Segurou a sua mão e a beijou, delicadamente. Invadiu-lhe uma grande ternura. Beijou duas vezes, três vezes, quatro vezes, muitas vezes e, já sôfrego, quando deu por si, mordia-lhe a mão branca, fina, feminina, esmaltada, ornada. Mordia a carne e sentia, na força dos dentes, na maciez da pele, uma enorme excitação. Cheirou os cabelos, lambeu-os, pô-los na boca, mordeu-os; agarrou-a, ousado, dono da situação, dono dela, como macho, marido, já consciente e mergulhante na loucura; agarrou-a em seus braços e beijou-a com violência. Tentava beber sua saliva, sorvia sua boca, mordia seus lábios. Ava transformou-se no banquete de um glutão. E essa imagem, essa fúria, era assombrosamente literal. Adaílton desejava comê-la, mastigá-la entre os seus dentes, consumi-la, tê-la dentro de si, fazer dela ele, exauri-la nele, sumi-la nele. Mas apenas se desesperou com essa idéia. Sentia-se incapaz de devorá-la. Se tivesse uma faca! Por que não pegou uma faca antes? Mas foi tão de repente... Se tivesse garras! Presas! Queria ser um tigre. Daria tudo para ser um tigre.

E o que fazer agora? Tinha-a ali, diante de si, o objeto do seu mais profundo e obsessivo desejo. Seus dentes rangiam, trincavam de excitação e dúvida. Queria profaná-la da forma mais grotesca possível. Era um anjo. Um anjo, que ao menos naquele momento, era seu e só seu. Um anjo cujo destino estava por ele selado.

Atirou-a de bruços sobre os sacos de lixo. Suas pernas lustrosas ficaram dependuradas. Ergueu a saia do anjo e abaixou sua calcinha. Observou seu traseiro branco, seu cu roxo exposto e indefeso. O anjo gemeu. Um gemido fraco, muito fraco, mas que invadiu-o de horror. É humana! Humana!

Mas aquele corpo exposto era obsceno e fazia seus olhos brilharem. Adaílton saltava, ia e voltava, por sobre o abismo da sua humanidade. Da carne ao céu, da coisa ao anjo. Só não podia lidar com Ava, com aquela moça cordial, simpática e bondosa que passava e conversava com ele na portaria. Só anjo ou coisa.

Ava gemeu mais forte. Céus! — disse entre um estremecimento inútil. Seu abismo era ainda mais profundo. Ela ainda sentia. Tinha vida, quem sabe consciência. Adaílton estava determinado a mergulhar nessa escuridão junto com o seu anjo indefeso. Queria unir-se violentamente ao seu anjo, trespassá-lo, transcender sua condição pelos atos mais grotescos, transcender descendendo. Ser branco, imensamente, supremamente branco. Pensou em Deus. Branco. Alvo e Supremo. Pensou em Deus, mas não como juiz. Pensou em Deus como testemunha do que faria ali. E também pensou em Deus como Voyeur.

Arrancou seu pau de dentro das calças e forcejou contra Ava. Ela gemia semiconsciente. Sentia a dor. Adaílton estocava sua fêmea branca e murcha que apesar da violência sofrida ia despertando aos poucos. Gemia entorpecida. O cérebro formigava. Adaílton seguia cada vez mais bruto, cada vez mais impiedoso. Saiu de dentro dela. Seu falo estava ungido de fezes e sangue. Os olhos de Ava se abriram pela primeira vez. E despertou no inferno. Adaílton recomeçou o martírio. Agora, pela vulva. Ava sentiu-se preenchida e tomou consciência da violência que sofria sem que ainda, de costas, tivesse identificado o seu algoz.

O homem forcejava, mas encontrava dura resistência. Rompeu-a. Seu anjo era puro e inocente. Sangrava, chorava e gritava sem energia. Por fim, calou-se de tão cansada. Gemia como ser inanimado que range.

Finalmente, Adaílton parou ofegante. Atirou seu corpo sobre o dela e relaxou. Prolongava o seu prazer, dono da situação. Chegou a fechar os olhos. E pela primeira vez sentiu sono em plena madrugada. Encaixava-se dentro de Ava e ia adormecendo com o perfume da sua pele que competia com o odor do lixo, quando ela pediu...

--Me deixa. Estou fértil. Eu te imploro. Já teve o que quis. Agora me deixa. Estou fértil, ouviu? Fértil... Não faça uma desgraça maior!

E aquelas súplicas tiraram Adaílton de seu prazeroso torpor. Aquelas palavras estremecidas iluminaram seu espírito como um relâmpago. Viu ali a sua salvação, sua redenção e foi com mais fúria do que antes que reacordou e recomeçou o martírio de Ava. Buscou desesperadamente naquelas entranhas umedecidas pelo sangue a vida e a união com o divino.

Gozou. Gozou como nunca gozara antes. Um êxtase místico. Inundou-a e atirou-se de lado, ao chão. Caiu inerte com um sorriso no rosto. Ela não morreria mais, e ele já podia morrer. Morrer com a possibilidade de estar salvo, de ter alcançado tudo aquilo que sempre lhe foi puro, cândido, virtuoso, belo e distante. Adormeceu assim, pleno.

Um dia, Ava, quase no dia do parto, foi visitá-lo na prisão. Conversaram secamente.

--Por que fez aquilo?

--Ciúmes.

--Jura?

--Juro. – disse tentando convencer a si mesmo.

Ava se convenceu. Pareceu sorrir ligeiramente. Ou, talvez, eu seja um pervertido e veja coisas. Mas só digo que pareceu.

--E havia outro jeito?

Silêncio.

--Não. Nem haverá. Você me violentou. Você foi o meu martírio, a minha provação.

--Venha me visitar. Traga o nosso filho!

--O MEU filho!

--Seu filho...

--E do Espírito Santo.

--E do Espírito Santo. Amém.

Ava acaricia o ventre.

--Vem me visitar!

--Não. Eu lhe escrevo. E só. Apenas me leia. Nem tente me responder. Me esqueça na terra.

--Cartas de amor, é?

--Quem sabe?

--Só Deus.

--Vai depender de você.

--Como se não vou te ver nem te escrever?

--Isso se sente. Cultua-me. Ajoelhe-se e reze pra mim. Todo santo dia!

--E você? Será fiel?

--Sim, porque sou pura. E você? Será fiel?

--Serei! Todo santo dia!

--Então jura.

--Juro por Deus que serei fiel a você.

--Então que Deus te perdoe. Adeus!

Ava se vai. E antes que saia escuta os gritos de Adaílton:

--Eu sabia que era um anjo! Santa! Você é santa! SANTA!!! Branca como santa!

--Tá bom, Adaílton... – diz o agente penitenciário – ...e você é pardo. Pardo, negro, índio, nordestino, tanto faz... Vamos lá. Tá na hora de voltar pra junto da sua gente, pro seu lar doce lar. FIM

--Silêncio! – grita o agente penitenciário.

Adaílton é arrastado para o pavilhão dos estupradores e atirado em sua cela coletiva.

--Era ela!

--A Santa? – diz um companheiro de cela.

--Sim! A Santa! Branca e Pura como sempre!

--Que vadia! Nenhuma vadia que eu estrupei veio me visitar.

--Vadia não! Santa, seu pardo! SANTA!

--Irmão... Tu é o cara mais tarado que eu já vi. Eu estrupo as vadia. Tu estrupa as santa!

Os outros riem.

--Amor! Estupro, não! Amor!

--Coé, mermão. Então nóis aqui estrupa as vadia e tu ama as santa?

Todos gargalham.

--Eu AMO! – grita com fúria.

--Ah, Daíltu... Tu é loco, cara.

Um velho, quase branco, se levanta do seu canto escuro e diz a Adaílton:

--Santo ninguém é. Nem santa. Nem minha neta era. Era inocente, mas pura não. Olha onde estamos... num inferno de concreto onde só tem negros e pardos... Assim como você, Adaílton. E nem nesse inferno somos aceitos, e com razão. Pele branca aqui, Adaílton, só aquela ali, nua, no pôster. E nós? Somos ruins demais até pra ficar com os outros delinqüentes.

--Não sou delinqüente!

--É! É estuprador! Aceite isso! E pare de chamar a Daniele Winits de Ava, de Santa, e de falar de Deus com ela! Ela é puta! Vadia! E você, estuprador. Assim é o mundo, assim é a vida e você precisa aprender!

--Não! Nunca! Vocês nunca sentirão o que eu senti. Vocês não sabem o que é ir além e quase tocar a pele de Deus. Eu vi a cor da pele de Deus!

Tuesday, October 26, 2004

Fast forward sem reward

É uma pena estar sem tempo e tranqüilidade pra continuar a escrever meus últimos projetos. E por falar em tempo passando rápido, aí vai mais coisa antiga.


Fast forward sem reward

Começou assim:

-My name is Lucifer. Please, take my hand!

-Ei! Isso é Black Sabbath, não?

-Exatamente. - disse o homem com a mão estendida. Ele tinha dois piercings subcutâneos simulando um par de chifres e estava queimado de praia. Sua pele era uniformemente vermelha, tinha bigode e cavanhaque pontiagudo. Trajava terno negro riscado. Definitivamente estranho. Ridículo, talvez.

Eu apertei a mão daquele sujeito e perguntei:

-Qual é o seu nome?

-Lúcifer, ora.

Eu ri sem vontade. Estava mal humorado e entediado; insatisfeito com a vida mesmo. Mas mesmo assim brinquei de volta:

-Ok. Então, Sr. Lúcifer, me dê um controle remoto pra minha vida. Só precisa de três teclas: "play", "fast forward" e "off". E eu te dou a minha alma em troca. Minha prostituída, roubada, violentada e vendida alma.

Achei que com essas palavras pesadas ele me deixaria, mas não entendi porque ele ficou tão entusiasmado com elas.

-Vou patentear a sua idéia! - disse. E tirou um controle remoto do bolso interno do paletó. Eu ri sem vontade de novo. Era o celular, claro. Mas qual não foi o meu espanto ao ver somente as três mencionadas teclas "play", "fast forward" e "off", no controle que ele passou às minhas mãos? Gelei! Fora isso, tinha um pequeno relógio digital acoplado.

-Negócio fechado? - ele indagou.

-Fechado e sem volta ou devolução! - consenti, apertando, quase instantaneamente, o "fast forward" para passar logo por cima daquela noite insuportável. E o apertei várias vezes desde então.

Virei adulto, amadureci, mas não me casei com ela, não ascendi na empresa (fui até demitido), o fluminense indo e voltando da terceira divisão, minha mãe morreu, ah... Tanta coisa... Fui vendendo tudo que herdei. É verdade que sempre me virei e sobrevivi. Sempre indignamente. Fiquei até bem numa época. Vendia persianas, negócio próprio. Montei uma firma e estava sempre de saco cheio. No dia em que pedi concordata gritei pelo diabo. Queria trocar o meu controle por outro com apenas uma tecla: "stand by". Ele não apareceu, claro. Devia saber que sem "play" não há "off" e sem "off" minha alma não seria dele.

O fato é que isso aconteceu há apenas 6 horas atrás, segundo o relógio digital do controle e ainda não achei nada muito divertido pra fazer. Quer dizer, eu procurava diversão, depois eu procurei o que procurar, depois, felicidade, depois, estabilidade, e agora já cheguei aos 77 anos e... Pfff. E pensar que 6 horas atrás eu tinha apenas 17. Foi tudo muito rápido. Uma velocidade suicida. Não preciso ver os créditos finais, sem epitáfio. OFF.



Tuesday, October 05, 2004

A Hello Kitty tá aparecendo em tudo que é lugar. Só falta posar pra Playboy. Mas dizem que ela acha que não tem a ver com ela, que não tem nada contra, mas que, pelo menos por agora não quer, que ainda não é o momento e se um dia tiver vontade fará. Dizem também que isso é tudo conversa fiada, que ela só sabe aparecer vestida em camiseta com cara de brechó do Alexandre Herchcovitch que custa R$180, mas que foge da raia quando o lance é posar nua porque na verdade não tem peito e nem bunda. Boatos a parte, a Hello Kitty foi substituída a altura por Mari Alexandre.

Monday, October 04, 2004

Vote 29

Sempre votei nulo, mas nessas últimas duas eleições, não sei bem o porquê, votei na Thelma Maria do PCO. Me deu vontade de fazer isso desde que eu a vi discursando com aquela blusa preta de lã com gola rolê, parecendo uma existencialista nos anos 50. 50, acho. Nessas eleições ela apareceu menos graciosa, mas ainda gostei do jeito manso e seguro do discurso militante de esquerda partidária dela. Ela não é tosca como partidos que cunham bordões como "quem bate cartão, não vota em patrão" ou "contra o burguês, vote 16". Mas é isso: minha fidelidade partidária de eleitor só existe por causa daquela gola rolê.

Thursday, September 30, 2004

Fragmentos de um projeto sobre a Conquista

A primeira nau da frota encalhou quando ainda pensávamos estar em águas profundas. O capitão e toda tripulação ficaram atordoados. Nenhum sinal de terra aparecera até então. Nem aves, nem algas, nem nada no horizonte. As outras naus que passaram encalharam mais a frente. Foi um brusco encontro com Deus. E com a graça Dele, não houve nenhum naufrágio(...)

Dos batéis avistamos a praia que se estendia como outro mar. Um deserto (...)

-Olha! Um unicórnio!
-Onde?
-Bem aqui na nossa frente!
-É um lagarto. Vou matá-lo e comê-lo.
-Matar o unicórnio, tolo?! Comê-lo? Um unicórnio bem diante dos teus olhos e queres matá-lo!
-Sim! Agora vejo! Um unicórnio! Escarlate como o sol se pondo!
-Escarlate, não! Branco! Branco como as nuvens, teu ignorante!
-É verdade! Alvíssimo!
E corremos ao acampamento pregonando a notícia do animal fabuloso e todos se maravilharam, até Elias, o incrédulo, o cético, o ranzinza. E muitos acontecimentos e animais fabulosos começaram a aparecer naquelas benditas terras desde aquele dia (...)

Não havia nada a ser invadido, tomado, conquistado, explorado... Uma dúzia de naus, centenas e centenas de guerreiros encouraçados em nome de Deus usando suas espadas sagradas para matar e comer cobras e lagartos. Nada a ser pilhado, ninguém a ser catequizado. O deserto era a nossa mais dura irrealidade (...)

"Um lugar divino! Uma terra resplandecente como ouro! Aqui a presença de Deus é imperiosa. Caminhar por estas terras é como caminhar sobre a mão de Deus, diante de sua face, diante do seu olho solar que nos cega... Não há solidão mais companheira, não há vazio mais pleno. É uma terra para se soerguer Conventos e Monastérios. É uma terra para os santos, para o jejum sagrado, para a castidade, para a humildade. Ah, vaidade! Ah, soberbia! Aqui nesta terra benta não tendes vez!" (...)

"E se é terra para os santos, se aqui é o solo perfeito para construir o mais sacrossanto dos Monastérios, é aqui também o lugar ideal para toda a gente perdida... É terra para bandidos e pecadores, é o terreno perfeito para construir a mais grandiosa das prisões. Aqui, pecar é impossível. A alma que não se salva nesta terra, não se salva nem diante das portas do Céu ou do Inferno, pois aqui se está diante da face de Deus. Não há pecado abaixo da linha do Equador, pois aqui é impossível pecar! Portanto, que venham os homens santos, mas que venham também as mais vis e perdidas criaturas desta terra. Aqui, o fugitivo de Deus, quanto mais longe pensa poder ir, mais entregue a Deus estará e quanto mais insistir na fuga, mais próximo de morrer sobre a divina mão estará." (...)

"Deus é misterioso e escreve certo por linhas tortas... Buscávamos a perdição e encontramos a salvação e a divina redenção nestas terras abençoadas. Procurando ouro encontramos a fé e pela ganância, chegamos ao desprendimento absoluto. Abençoado Nada! Eis aqui o verdadeiro Paraíso Terrestre!" (...)

O capitão se negava a alçar âncora, astiar velas e partir. Queria explorar aquelas terras e quando seu desespero levou de vez a sua alma, não lhe bastou mais explorar aquele imenso deserto onde a léguas de distância já se previa que nada se veria: quis guerrear. Voltou a galope e anunciou que o exército inimigo marchava em nossa direção. Chamou todos os seus homens às armas (...)

Lá estavam todos enfileirados, em posição de combate, esperando a aparição do exército inimigo e o sinal do capitão. A espera sob o sol e o silêncio durou algumas horas e os homens estavam tensos. O capitão não queria marchar. Quando o sol atingiu seu ápice e não restava nem mais uma mínima sombra o capitão sobre seu cavalo ergueu o sabre, lançou sua ponta para frente e gritou "Atacar!". Com enorme coragem e deprendimento da propria vida partiu em carga contra o inimigo. Seu exército, não sei se por espanto ou covardia, apenas admirou a sua primeira investida contra o inimigo que o derrubou do cavalo. Mas o capitão recuperou o seu sabre e reiniciou o combate. E pelo que se podia perceber a partir do capitão, havia inimigos por todos os lados.

Começaram murmúrios sobre bruxaria. O capitão estaria enfeitiçado. Mas este rumor cedeu a outro mais forte. O demônio tornou invisível o exército inimigo, mas Deus dera forças de mil homens ao capitão. E assim, todos se lançaram aquela lida que só terminou quando o sol ia se pondo, quando o cansaço derrubou vários soldados.

Alejandro Etc.

Wednesday, September 29, 2004

Casa de Família

"Dliiim-dloooum" tocou a campainha melifluamente. Iguana não via os primos e os tios há pelo menos uns sete anos. Sumiu mais ou menos na época que se tornou straight edge, vegan, e quando começou a se tatuar. Da última vez que viu os primos, sua pele ainda era virgem e imaculada. Antes desse sumiço, passava todas as férias nessa casa na qual estava prestes a entrar. Longas férias. Chegava a pensar que morava ali. Foram bons momentos. Lembra-se bem do seu tio Carlos levando ele e os primos pra passear de carro, ir ao Parque Municipal, andar a cavalo, ir nos brinquedos, tomar sorvete ou comer melancia... Mas as coisas mudaram bastante. Agora, lá estava ele e a mãe. Seu coração batia tão forte que a asa direita da águia do Path of Resistance, sua terceira tatuagem em ordem cronológica, parecia bater também. Realmente não queria estar ali. E a porta se abre:
-PUTA QUE ME PARIU!
-Oooi, Carlos! - disse a mãe de Iguana. - Quanto tempo, hem?
-Regina, quem é esse? Seu amante?!
-É o Leozinho, Carlos! - disse ela rindo bobamente, ainda do lado de fora. Carlos era um cara enorme para todos os lados. Alto e gordo, calvo, um bigode exagerado, respiração sempre arfante e uma cara sempre séria e mal-humorada, apesar do seu constante senso de humor e piadas doentias. A última coisa que Carlos seria na vida é uma pessoa séria.
-Vai nos deixar aqui do lado de fora? - disse Regina.
-Você não, que é um doce. Pena que na época eu não percebi que você dava mole pra mim e me casei com a tarada da sua irmã. Agora, esse cara aí, eu não sei. Mó pinta de vagabundo...
Regina riu e foi entrando, cumprimentando, abraçando, beijando, elogiando, se admirando com as crianças, etc...
Iguana, ou melhor, Leozinho (pois Iguana era só na cena), foi entrando logo depois da mãe, mas o tio Carlos colocou a sua enorme barriga na frente e o bloqueou:

-Onde pensa que vai, cara? Isso aqui é casa de família.
-Não enche, tio. Me deixa entrar.
O tio Carlos encarou Leozinho com seu olhar de peixe morto.
-Agora é só eu e você!
"It's me or you and something is gotta give!", pensou Iguana. E ainda: "...No time for simpathy, moment of truth is here. I don't care what you think of me, it's not revenge I seek, it's you and me. Right now! You and Me! Right Now! Just you and me!"
-E essas suíças de viado? Regina! - gritou Carlos pra dentro da casa, ainda bloqueando Leozinho no corredor, que morria de vergonha de um vizinho que escutava tudo esperando o elevador. - Como você namora um cara com essas suíças de homossexual?
-Pára de encher ele, Carlos. - disse Regina já sentada no sofá da sala.
-Fecha a porta, Carlos. Tá entrando a maior corrente de ar. Pára de palhaçada. Quero ver o Leozinho. - disse Ângela, a esposa de Carlos.
-Mesmo com essas suíças de viado?!
-Suíças? - perguntou Iguana.
-Suíças, costeletas, viadagem... Vai entrando, ô cara. Mas tô de olho em você!
Carlos pegou Iguana pela cabeça e o atirou para o meio da sala, onde ele tropeçou em um bebê e caiu. Levantou-se rapidamente. A criança chorou. Carlos fechou a porta lentamente, como tudo que faz, e, foi arrastando os chinelos pro meio do povaréu.
-Leoooziiinhooo!!! - disse a tia Ângela após alguns segundos de estupefação muda.
Não havia mais lugar pra se sentar na sala. Todas as suas tias, avós, tias-avós e tios-avôs, primos, sobrinhos desconhecidos, etc dominavam o lugar. E havia um trânsito congestionado de bebês e crianças pelo tapete. O clima era tenso e cheirava a coxinha de galinha, pão de queijo e guaraná.
Iguana sentiu um calor na retaguarda. Era o tio Carlos, parado logo atrás dele, comendo coxinha, arfando e lendo as suas tatuagens.
-Que porra é "bortuluse, live tuím"?
-Me deixa, gordo!
-Regina! Esse cara tem uma mulher pelada no braço! Até vejo os mamilos dela! - disse Carlos.
-É uma pin up - disse Regina. Não lembra? Isso é do seu tempo! - e riu em seguida.
-Pois é. Mas só em poster e calendários. Eu tocava punheta pra elas. Muita punheta, é bom dizer!
-Aiii, Carlos. Que horror. - disse Ângela. - Olha a tia Oswaldina aqui! Sabe que ela não gosta disso.
-Velho maluco! - disse uma das tias-avós. Tia Oswaldina, felizmente, era quase surda.
-Puta merda! - disse Carlos rindo e cuspindo fiapos de galinha. - Tooodo rabiscado! Por que você tatuou uma mulher pelada no seu braço, cara? Quer que homens se excitem ao olhar pra você? Tem mais mulher pelada por aí? Quero ver! Me deixa ver!
-Só tem essa, graças a Deus. - disse Regina, simpática como sempre.
-Uma mulher pelada, um peixe, uma bola de sinuca, incêndios, um cadillac, uma caveira com um parafuso na cabeça... Tira a camisa, tira a roupa, cara, deixa eu ver o que tem mais aí...
-Tira a mão, gordo! Me solta, me deixa! Sai! Chispa!
-Deixa o menino, Carlos! - disse uma tia bonachona chamada Antônia. - É coisa da adolescência!
-É, Tonhona? - Carlos sempre tinha um apelido especial e desagradável para cada parente, que ele nunca esquecia e que só ele usava. - Por isso esse mundo é um manicômio. Adolescentes demais. Crianças adolescentes, bebês adolescentes, velhos tarados adolescentes, todo mundo é adolescente nessa porra! Mate um adolescente e faça o meu dia feliz!
-Seus filhos são adolescentes! - disse Tonhona.
-Mas eu ponho eles na linha! Eles são adolescentes adultos.
A esposa gargalhou e ironizou:
-Põe sim, Carlos! Eu sei que põe.
-Pelo menos eles não estão rabiscados. E olha! Rabiscado e tooodo furado. Olha isso, que indignidade! Dois rombos na orelha! É um degenerado!
-São plugs, Carlos. - disse Regina, querendo se mostrar uma mãe interada e moderna.
-Plugs?! Deixa eu ligar o microfone do videokê na sua orelha então, cara! Vamos cantar!

A anfitriã, tia Ângela, chamou todos pra mesa:
-Venham, antes que o Carlos coma tudo.
-Nada mais justo! Afinal, eu paguei por tudo isso.
A multidão se desloca. Iguana fica parado no mesmo lugar. Começa a se sentir enjoado.
-Aaah, gente! - disse Regina, mãe de Iguana - Vocês não sabem da maior. Leozinho é vegan.
-Vi o quê? - perguntou Carlos.
-É vegetariano. Mas é mais complicado.
-Ah é?! Complicado? Eu descomplico... - disse tio Carlos. E dando tapinhas na cadeira, a única restante, ao seu lado, chamou por Leozinho: - Vem cá, vem! Vem comer um peixinho frito com o titio.
Iguana, rápido como um réptil, correu para a porta. Tentou abri-la e escutou o tio Carlos dizer:
-Eu pego ele...
Iguana ia testando chave por chave e o barulho arrastado do chinelo do tio Carlos ia se aproximando. Uma, duas, três, quatro chaves, o desespero aumentava, o suor escorria e nada... Iguana, ateu convicto, murmurava tenso para si: "Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!..."
Tio Carlos apareceu do outro lado da sala. Caminhava de forma pesada e tranqüila. Era uma tortura mental. Cinco, seis, sete chaves, e Carlos chegou no corredor de entrada e parou. Três passos de distância. Oito, nove, décima chave e serviu! Serviu, porra! Iguana girou a maçaneta e... não abriu.
-Falta essa papaiz do trinco aqui. - disse Tio Carlos, balançando vitoriosamente a chave no ar diante dos olhos apavorados de Iguana. Em seguida, sua mãozorra foi pegar o prêmio.
-AAAAAAAAAAAAAAh!!! AAAAAAAAAAAAAAAh!!! NÃÃAAAAAAAAAAAooo!!! AAAAAh!!! - gritou Iguana.
-Meu Deus! O que é isso?!
-Meu filho!
-Carlos esfolou o menino!
-É um estupro!
-Eu te avisei, Ângela! Sempre te avisei! - disse tia Oswaldina que ouviu claramente os gritos.
Os familiares correram para acudir Leozinho. Se amontoaram no vão da porta, mas Regina foi a única que conseguiu se aproximar do filho histérico.
-Quero sair! Me deixa sair! - gritava Iguana.
-O que você fez com ele, Carlos? - perguntou a sogra. E Carlos, sem graça e assustado, respondeu:
-Nada! Só vim buscá-lo para almoçar, caralho.
Iguana mostrava-se inconsolável e irredutível. Carlos entregou a papaiz à Regina, que abriu a porta para o filho. Iguana nem esperou o elevador, desceu as escadas correndo.
-Gente!... - disse Regina admirada. - Eu vou atrás, né? Me dá minha bolsa aí, Ângela. Desculpa, né gente? Se der eu volto.
Regina saiu, diante do espanto familiar.
-Viciado! - esbravejou Carlos, com o consentimento silencioso de todos. - É coisa de adolescente! - disse remendando ridiculamente a voz de Tonhona. - Eu vou te mostrar o que é coisa de adolescente!

Alejandro Sainz de Vicuña Etc.

Los cronopios vs el sistema

Esse é o nome do evento em homenagem a Julio Cortázar no consulado argentino. Foi muito bom encontrar vários cronópios. Se tinha algum fama lá, estava disfarçado de cronópio. Sim, os famas sabem parecer outros, mas não por diversão, e sim por motivos importantíssimos e com um profissionalismo impecável; com fins práticos e necessários justificando os meios eficientes e eficazes. Ah, não! Tinha um fama sim... Mas coitado, era nitidamente um fama, parecia entediado, mas soube manter-se solene e seguir o seu protocolo.

Os debates e as palestras foram legais, as charlas também, o Axolotl foi engraçado (não imaginava assim), a violinista envergonhada e solitária, ou com Bach, foi legal, o duo, ela e outro violinista, a dois, ou a trois com Bartok, isso sim foi fantástico. E as milongas de Gardel, Cortázar e Piazzola.

Ah! Esquici do filme... La intimidad de los parques de Antín, baseado nos contos El ídolo de las cícladas e La continuidad de los parques, ambos do Cortázar. Foi outra coisa. Sem fidelidade. Trocar o Egeo, Grécia, Creta por Machu Pichu, a Grécia latino-americana, foi bem sacado; o minotauro pelo ¡venga toro!, também. Mas o filme não nocauteia como um conto. É lento, lânguido, e alterou coisas fundamentais como as tetas de Therèse (Teresa segundo o filme). As tetas de Teresa (eu prefiro seios, mas tetas de Teresa soa melhor do que seios de Teresa) estavam perfeitamente colocadas no conto. Apareciam descobertas na hora certa e se cobriam na hora certa e da forma certa e com a analogia certa: compare Therèse cobrindo os seios com a estátua em questão. Quase o mesmo gesto. Sem falar que no conto, Therèse aparece tanto quando a estátua. No filme, Teresa é uma Capitu devassa, devassada, que todo mundo sabe que traiu Bentinho (ou Hector, no filme, ou Morand no conto).


Viaje (cronopios y famas)

Cuando los famas salen de viaje, sus costumbres al pernoctar en una ciudad son las siguientes: Un fama va al hotel y averigua cautelosamente los precios, la calidad de las sábanas y el color de las alfombras. El segundo se traslada a la comisaría y labra un acta declarando los muebles e inmuebles de los tres, así como el inventario del contenido de sus valijas. El tercer fama va al hospital y copia las listas de los médicos de guardia y sus especialidades.

Terminadas estas diligencias, los viajeros se reunen en la plaza mayor de la ciudad, se comunican sus observaciones, y entran en el café a beber un aperitivo. Pero antes se toman de las manos y danzan en ronda. Esta danza recibe el nombre de "Alegría de los famas".

Cuando los cronopios van de viaje, encuentran los hoteles llenos, los trenes ya se han marchado, llueve a gritos, y los taxis no quieren llevarlos o les cobran precios altísimos. Los cronopios no se desaniman porque creen firmemente que estas cosas les ocurren a todos, y a la hora de dormir se dicen unos a otros: "La hermosa ciudad, la hermosísima ciudad". Y sueñan toda la noche que en la ciudad hay grandes fiestas y que ellos están invitados. Al otro día se levantan contentísimos, y así es como viajan los cronopios.

Las esperanzas, sedentarias, se dejan viajar por las cosas y los hombres, y son como las estatuas que hay que ir a verlas porque ellas ni se molestan.

Julio Cortázar



Tuesday, September 28, 2004


Julio "Lemmy" Cortázar e seu gato. Posted by Hello

El sueño de la razón produce monstruos...




Y la razón de lá sin razón de los sueños produce qué?


DIÁLOGOS A DOIS pt. II - O Anarco-punk e o Nihilista


NIHILISTA-Por que matou o grilo?
ANARCO-Sei lá. Acho que só pra ver ele morrer mesmo, assim, do nada, sem motivo, gratuitamente. E eu ainda saio impune.
NIHILISTA-Parabéns. Um filhote de desembargador não teria feito melhor.
ANARCO-Uma existência interrompida brutalmente... Você acha que existe ato mais hediondo do que tirar uma vida sem motivo?
NIHILISTA-Sim, tirar muitas vidas sem motivo.
ANARCO-Claro. Mas existe ato mais hediondo do que um holocausto onde o genocida não se dá nem ao trabalho de justificar a matança?
NIHILISTA-E justificar faz alguma diferença?
ANARCO-Faz. Desde que se acredite na justificativa. Eu falo em cometer um genocídio como quem chuta uma lata na rua. Existe algo mais hediondo do que isso?
NIHILISTA-Você completamente nu.
ANARCO-Porra!
NIHILISTA-Certo... Tem sim. Tem coisa pior.
ANARCO-Pior?! Como assim?!
NIHILISTA-Pior do que tirar vidas sem motivo é criar uma vida sem motivo. Qual filho já não disse aos pais que não pediu pra nascer? É como dizer: Eu preferiria nunca ter existido, eu preferiria nunca ter que preferir. Eu não pedi prazer nem dor, não pedi amor nem ódio, não pedi verdade nem mentira, não pedi diversão nem tédio, não pedi certeza nem dúvida. Por que não deixam o Nada quieto na dele? Por que não o deixam seguir sendo o que sempre foi?
ANARCO-Você só quer arranjar um motivo filosófico pra gostar ainda menos dos seus pais.
NIHILISTA-E Deus é ainda pior do que os meus pais e do que todos aqueles que se reproduzem! Quantas vidas ele não criou sem motivo? Um universo inteiro sem motivo algum! Por que incomodar o Nada que desdenha do Absoluto, do transcendente, das utopias e até dos bons e fúteis momentos de uma vida qualquer? Não existe motivação para criar o que quer que seja. E criar é como um vírus, uma peste, empesteia o Nada, destrói ele. Uma criação leva a outras e a outras e a mais outras. Criar é a maior de todas as contradições, ou a única contradição relevante: criar é perturbar a única coisa plena e absoluta, o Nada, para depois tentar, em vão, criando e criando, alcançar o absoluto, que digo, com segurança, é o Nada.
ANARCO-Mas toda criatura pode escolher entre viver e o nada. Toda criatura pode decidir se acredita que veio do nada e terminará em nada; se acredita em um Criador ou no acaso ou se não acredita em nada, se ignora, se duvida... Eu, enquanto criatura, posso, se assim creio, voltar a ser nada. Mas e se o Nada não existir como aquilo que inexiste? Se o Nada for apenas uma espera? Ou uma terceira coisa?
NIHILISTA-Ok. Eu sou uma criatura e acho que viver não vale a pena. Eu acredito no nada e quero me matar. Por que não consigo? Porque me foi dado o maldito instinto de auto-preservação, de sobrevivência! Eu pedi esta merda a alguém?
ANARCO-Não. Mas se matar pode ser tão simples e rápido que instinto algum seria problema. O problema é que você não tem convicção no Nada. E essa dúvida te come por dentro porque te impede de ser um nihilista convicto. Você sente raiva por não poder ser plenamente e tranqüilamente o que se propõe a ser. Você pode se dar um tiro na cabeça e em seguida ver que a escuridão definitiva não veio. Vai ser patético. "Ih, que merda! Eu ainda penso, logo existo!" E o injusto é que se você triunfar, não vai ter nem tempo de sorrir.
NIHILISTA-Não faria nem questão de sorrir, muito menos de triunfar. Triunfar sobre o quê? Se eu quero mais é que tudo se foda. E você? Não se sente angustiado por viver sem ter o conforto e a certeza de uma finalidade para a sua vida? Se você luta por alguma coisa, por justiça, se essa é a sua escolha, você está correndo o mesmo risco de ser patético como eu serei ao me dar um tiro na cabeça.
ANARCO-Sim, mas é melhor que assim seja.
NIHILISTA-Como? Não sente raiva por viver sem ter pedido para existir? Sem ter coragem ou certeza para se matar e acabar com esse absurdo? Ou para lutar por justiça sem ser em vão? Se Deus existe, eu sinto raiva dele por me criar e não explicar as regras do jogo.
ANARCO-Tudo bem, mas se Deus te criasse e desse uma finalidade à sua existência e à existência dos outros, você chamaria ele de Fascista.
NIHILISTA-E eu estaria coberto de razão!
ANARCO-Ou seja, a única forma de você não se ressentir com a vida é inexistindo.
NIHILISTA-Ou quando eu estou curtindo ela adoidado.
ANARCO-E esses momentos não fazem valer a pena estar vivo?
NIHILISTA-Acho que não. Você comeria um sorvete sabor merda com saborosíssimos pedacinhos de chocolate?
ANARCO-Valendo cinqüentinha?
NIHILISTA-Valendo a sua alma.
ANARCO-Pfff...
NIHILISTA-Então tá, eu vou destruir esse assunto te contando uma pequena história.
ANARCO-Pequena mesmo?
NIHILISTA-Sim. Apesar de ser História com "H" maiúsculo.
ANARCO-História do Brasil ou Geral?
NIHILISTA-Digamos que seja História Geral. Vamos chamar essa breve exposição de:

"HISTÓRIA BRUTALMENTE PRECISA E CONCISA DA HUMANIDADE SOB UMA PERSPECTIVA MAGNÂNIMA"

ANARCO-Gostei do nome. Diga lá...
NIHILISTA-Lá vai... De um minúsculo ponto irrompeu-se uma explosão. Dessa explosão se formaram estrelas. Ao redor de uma delas formou-se um planeta onde surgiu um ser pretensioso que inventou o conhecimento. Algum tempo depois a estrela esfriou e a vida no planeta acabou junto com o ser pretensioso que inventou o conhecimento.
ANARCO-E?...
NIHILISTA-Como assim "e?...", ser ínfimo?
ANARCO-Ah tá! Já entendi...
NIHILISTA-E agora que você entendeu, não se sente o ser mais insignificante do Universo junto com todo o Universo?
ANARCO-Pô, por mais ilógico que isso te pareça, não.
NIHILISTA-Como não?!
ANARCO-Talvez, se eu vivesse um milhão de anos para cada ano de vida...
NIHILISTA-Você é anarquista, cara! Por favor! Reconheça que você é um ser doentio e alienado. Reconheça que você vai morrer em um mundo igual ou pior do que este em que você nasceu. Ou, vá lá, insignificantemente melhor. Não vai ter ruptura, não vai ter revolução, não vai ter mundo colorido comunista libertário! E ainda que essa hipótese absurda sem pé nem cabeça aconteça, um dia, as luzes se apagam e puf, buááá, meu mundo anarcocolorido se foi junto comigo e os meus amiguinhos anarcopunks pro saco. Percebe que eu falo de algo maior que esta merda de sociedade? Eu falo de como as coisas são e não de como elas estão e muito menos de como você quer que elas estejam. Custa assumir a sua infimidade, bípede insignificante?
ANARCO-Você fala muita merda. Sabe quando o Sol vai esfriar?
NIHILISTA-Dane-se o Sol e você junto com ele! Não importa se o Sol esfria, se esquenta, se evapora, se derrete, se um meteoro atinge a Terra, se acontece um Holocausto nuclear... O que você tem que entender na História da humanidade não é a duração dela, mas que todo barulho que a humanidade fizer vai ser, inevitavelmente, muito barulho por nada.
ANARCO-E você tem que entender que você andou em círculo e voltou ao repetitivo ponto de ter uma certeza sobre a sua existência quando o que te corrói por dentro na verdade é a incerteza. Não sou eu quem não consegue encarar a vida. É você, que prefere se agarrar a uma certeza trágica e nihilista a encarar a incerteza, o jogo de azar que é a vida. Você foge disso como um desesperado.
NIHILISTA-Jogo de azar? Pode ser... Pra mim é uma roleta russa. Eu pego um revólver com um tambor com lugar para o número de dias ou balas que cabem na minha existência e cada dia dou um tiro na cabeça até chegar ao derradeiro.
ANARCO-Se chegar...
NIHILISTA-Toda roleta russa tem ao menos uma bala no tambor.
ANARCO-Sem certezas... Nunca se sabe.
NIHILISTA-Que jogo seria pra você? Pôquer? Cuspe a distância?
ANARCO-Não! Pôquer tem blefe e depende muito da competência do jogador. A vida é mais randômica. Pra mim também é uma roleta, só que de cassino. Você tem as suas fichas e aposta no que acredita. Uns têm mais fichas que outros, mas cada ficha tem um valor misterioso. Você pode apostar metade delas no preto e metade no vermelho. Pode, se quiser, apostar tudo no 13. Pode ficar mudando as fichas de lugar ansiosamente, desesperadamente, enquanto a roleta gira.
NIHILISTA-Vai dar banca, otário! Zero! Zero-zero!
ANARCO-Talvez, mas essa aposta eu não posso fazer.

Continua...
(Será?)